Lista das 327 teses que constam da obra “Filosofia Concreta” de Mário Ferreira dos Santos.

 

  1. Alguma coisa há, e o nada absoluto não há.
  2. O nada absoluto, por ser impossível, nada pode.
  3. Prova-se mostrando e não só demonstrando.
  4. A demonstração exige o termo médio; a monstração, entretanto, não o exige.
  5. Há proposições não deduzidas, inteligíveis por si de per si evidentes (axiomas).
  6. Pode-se construir a filosofia com juízos universalmente válidos.
  7. O nada absoluto é a contradição de alguma coisa há.
  8. O que há – é; é ser. O que não há é não-ser.
  9. A proposição “alguma coisa há” é notada suficientemente por si mesma.
  10. “Alguma coisa há” não é apenas um ente de razão, mas um ente real-real.
  11. Alguma coisa existe.
  12. O nada absoluto nada pode produzir.
  13. Alguma coisa sempre houve, sempre foi, sempre existiu.
  14. Alguma coisa que sempre houve, que sempre foi, que sempre existiu, ainda há, é e existe.
  15. O alguma coisa que sempre houve, sempre foi e sempre existiu, não teve princípio. Sempre foi e sempre é.
  16. Entre ser e nada não há meio-termo.
  17. O Ser não pode ter surgido subitamente, pois sempre houve alguma coisa.
  18. O que tem prioridade é alguma coisa.
  19. O que tem prioridade é afirmativo.
  20. Se o nada absoluto tivesse prioridade não seria nada absoluto, pois seria afirmativo.
  21. A dúvida humana afirma.
  22. A dúvida absoluta é impossível.
  23. A afirmação tem de preceder necessariamente à negação.
  24. A negação afirma a afirmação.
  25. A negação absoluta seria, por sua vez, afirmação de algo.
  26. A negação é sempre afirmativa, seja de que modo for.
  27. É absolutamente falsa a predicação da ausência total e absoluta.
  28. É absolutamente verdadeira a predicação de uma presença.
  29. A verdade ontológica prescinde do rigor psicológico.
  30. O Ser, que sempre foi e sempre é, é plenitude absoluta de ser.
  31. O Ser é, pelo menos, de certo modo, absoluto e infinito.
  32. O não-ser relativo é o apontar de uma ausência de perfeições determinadas.
  33. A afirmação precede ontologicamente à negação.
  34. O Ser tem prioridade à relação.
  35. Não se podem predicar propriedades ao não-ser absoluto.
  36. O não-ser relativo (nada relativo) não tem propriedades. A ausência de propriedade é, no entanto, relativa e não absoluta.
  37. O nada-relativo tem sempre positividade.
  38. Ante o ser, o não-ser relativo não o contradiz, porque não nega absolutamente ser ao ser. O não-ser relativo é apenas a ausência de uma perfeição, e não a ausência absolutamente total do ser.
  39. Entre o não-ser relativo e o não-ser absoluto, há a diferença que o primeiro é positivo, enquanto a postulação do segundo nega toda e qualquer positividade.
  40. O ser absoluto é apenas Um e só pode ser Um.
  41. Se existisse outro ser primordial, ambos seriam deficientes e o ser seria deficiente.
  42. Ao Ser absoluto, por ser infinito, repugna a admissão de outro ser infinito, ou de outro ser qualquer independente dele.
  43. Ao ser absoluto não lhe falta coisa alguma para ser.
  44. O nada absoluto é homogeneamente nada.
  45. O Ser é o poder infinito e absoluto de ser tudo que pode ser.
  46. Além da impossibilidade do nada absoluto total, há ainda a impossibilidade de um nada absoluto parcial.
  47. É impossível que o ser esteja isolado pelo nada.
  48. O Ser absoluto é absolutamente simples.
  49. O Ser absoluto é suficiente e proficiente.
  50. O Ser absoluto é primordialmente absoluto. É imprincipiado, ingenerado, e absolutamente o primeiro.
  51. A negação, considerada em si mesma, seria nada. Consequentemente, toda doutrina negativista é falta.
  52. A unidade é o carácter de ser um. Todo ser é unidade.
  53. Toda realidade possui o ser da mesma maneira que possui a unidade.
  54. A unidade relativa deve ser considerada sobretudo como estrutura.
  55. A unidade absoluta é absolutamente simples.
  56. A causa da unidade é necessariamente uma.
  57. Há necessariamente uma causa primária de todas as unidades.

 

Corolário

 

A causa uma primária e necessária é absolutamente necessária.

 

  1. A causa uma primária e absolutamente necessária é única.
  2. A estrutura ontológica do “eidos” do absoluto exige que se estabeleça a distinção entre absoluto simpliciter e absoluto secundum quid.
  3. A unicidade pode e deve ser considerada de modo absoluto e de modo relativo.
  4. Na essência lógica do ser, todos os entes se univocam e também se univocam na unicidade.
  5. A unicidade é incomunicável.
  6. O ser afirma-se por si mesmo.
  7. O ser, enquanto tal, não o podemos abstrair.
  8. O ser é verdadeiro.

 

Corolários

 

O ente não pode ser explicado pelo nada.

O conceito de nada inclui contradição, e exclui tanto o ser “extra-intellectum” como o no intelecto.

Ente é o que não inclui contradição.

Ente é o que, ao qual, não repugna ser.

Não há proporção (proportio) entre ser e nada.

O Ser Supremo é intensistamente ser, porque é todo em si mesmo. E é extensistamente ser, porque só há o ser e não o nada absoluto.

  1. Num vazio absoluto os átomos não poderiam mover-se.
  2. É anterior o que de certo modo se dá antes de outro, que lhe é posterior.
  3. O dependente, para ser, depende de um anterior.
  4. A dependência implica anterioridade e posterioridade.
  5. A dependência implica abaliedade e subalternidade.
  6. A anterioridade e a posterioridade dão-se na ordem cronológica, na ordem espacial, na ordem lógica, na ordem da eminência, na ordem axiológica, na ordem ontológica e na ordem teológica.
  7. O que não é posterior ao anterior não é posterior ao posterior.
  8. O anterior ao anterior é anterior ao posterior.
  9. Causa é o nome que se dá à dependência real do posterior ao anterior.
  10. Quanto à natureza e à essência, o anterior é apto a existir sem o posterior. O inverso não se dá.
  11. Um ser não depende essencialmente de si mesmo.
  12. Um ser não pode ser mais do que ele mesmo.
  13. Um ser não pode existir sem si mesmo.
  14. O ser dependente é necessariamente finito. O Ser infinito é absolutamente independente.
  15. O que pode existir por sua própria força existiu sempre, e não foi causada.
  16. Há um ser primeiro que em si tem a sua própria razão suficiente de ser.
  17. O ser finito não tem em si a sua razão suficiente de ser.
  18. O que não se ordena a um fim não é um efeito.
  19. Alguma natureza é causa eficiente.
  20. Todo facto supõe algo que o antecede.
  21. O que não é causado por causas extrínsecas não é causado por causas intrínsecas.
  22. Entre duas causas simultâneas, uma deve ter prioridade de certa espécie sobre a outra.
  23. Nem sempre o mais imediato efeito de uma causa do mais remoto efeito da mesma causa.
  24. Para que algo seja efetível (torne-se um efeito) é imprescindível um efetivo.
  25. Todos os seres que sucedem (em devir) são possíveis (possibilia) que se atualizam e exigem um anterior efetivo.
  26. Caracteriza o efetível a possibilidade de vir-a-ser (de devir).
  27. Algo é absolutamente o primeiro, e anterior a todos.
  28. Na ordem ontológica, o mais precede ao menos, mas o inverso se dá na ordem física.
  29. O que se coloca entre os extremos é mais próximo destes, do que os extremos entre, considerados no mesmo vector.
  30. Acidente é o que pode estar ou faltar em um sujeito sem corrompê-lo substancialmente.
  31. É impossível que um só e mesmo princípio específico de ação (faculdade) pertença a substâncias diversas.
  32. Há, contudo, um princípio de ação que é um só em todas as coisas.
  33. O Ser absoluto é “substancial” e “adverbialmente” infinito.
  34. O Ser absoluto (o primeiro eficiente) é incausável.
  35. Sendo o Ser absoluto indefectível e incausável, consequentemente não é finível, nem materiável, nem formável, nem, portanto, é composto de matéria e forma.
  36. O Ser absoluto é absolutamente livre.
  37. O Ser absoluto é “formalmente” infinito.
  38. O Ser absoluto, por ser absolutamente simples, é indecomponível.
  39. Um ser indecomponível é indestrutível.
  40. O Ser infinito perdura interminadamente, e é imutável. É, em suma, a imutabilidade absoluta.
  41. O Ser absoluto que é, foi e será, é a fonte e origem de todos os seres.
  42. O Ser infinito contém em si todas as perfeições e é, portanto, omniperfeito.
  43. O Ser infinito é omnipresente.
  44. O Ser infinito é omnipotente.
  45. O Ser infinito é a providência absoluta.
  46. O Ser finito não é absolutamente idêntico a si mesmo.
  47. O ser finito não pode atingir a uma perfeição absoluta nem na sua espécie.
  48. O que não é por si mesmo não pode ser por si mesmo.
  49. O ser incausável é um ser necessário por si mesmo.
  50. Convém distinguir o conceito de necessário de o de “necessitário”.
  51. O Ser Supremo tem a primazia na ordem da eficiência, na do fim e na da eminência.
  52. O Ser Supremo é atualíssimo e perfeitíssimo.
  53. Toda natureza dependente é triplicemente dependente.
  54. O que é intrínseco ao Ser Supremo o é no mais alto grau.
  55. É finito o ser contingente.
  56. Todo ser contingente preexiste de certo modo no Ser Supremo e nele perdura sempre.
  57. É impossível uma infinidade de causas essencialmente ordenadas. É impossível uma infinidade de causas acidentalmente ordenadas.
  58. O Ser Supremo não tem um fim fora de si.
  59. O Ser Supremo é existente em ato.
  60. Todas as coisas finitas atuam por um fim.
  61. A causa primeira, que é o Ser Supremo, move por si mesma.
  62. O Ser infinito é ato puro.
  63. A potência ativa do Ser infinito é infinita.
  64. O Ser infinito é “substância” infinitamente considerada.
  65. O Ser infinito não é corpóreo.
  66. Todas as perfeições estão, infinita e absolutamente, no Ser Supremo.
  67. O Ser infinito é eterno.
  68. O Ser Supremo tem todas as perfeições possíveis em ato.
  69. O Ser Supremo contém formalmente todas as perfeições absolutas, e contém as perfeições dos seres finitos não formalmente, mas intencionalmente, virtualmente e eminentemente.
  70. O Ser Supremo é apenas ser, e ser intensistamente máximo.
  71. O Ser Supremo é real, intrínseca, primordial e necessariamente o ser que é existente por essência.
  72. A essência física do Ser Supremo é a omnipotência.
  73. A essência metafísica do ser finito consiste em ser por dependência essencial radical e positiva.
  74. A criatura é multiplicável em muitos indivíduos sob qualquer que seja a espécie.
  75. Só há um ser que é por necessidade absoluta Todos os outros só podem ser por necessidade hipoteticamente absoluta (necessitários).
  76. O Ser Supremo é essencialmente único.
  77. Só o Ser Supremo é absolutamente subsistente.
  78. As formas não estão nem singular nem universalmente no Ser Supremo.

 

Corolários

 

A potência ativa infinita do Ser Supremo é a omnipotência.

O Ser Supremo pode fazer tudo quanto pode ser de modo dependente.

A ação transitiva, ou criativa, que é educativa do Ser Supremo, distingue-se dele, e distingue-se da criatura.

O que não contradiz o Ser é realmente possível. Ontologicamente, o que é realmente possível quanto ao Ser, é.

O que não é seu próprio ser, participa do ser de uma causa prima, que é seu próprio ser, que é o Ser Supremo.

Uma mesma coisa, que é uma, não pode ter dois seres substanciais.

Em todo ser dependente, a essência e a existência se distinguem.

 

  1. A operação exige a precedência do ser-em-ato.
  2. O operar segue-se ao ser (agere sequitur esse).
  3. O resultado da operação é proporcionado ao ser que opera e ao operado.
  4. O agente domina o agível proporcionado ao seu agir.
  5. A ação segue-se ao agente: a paixão, ao paciente.
  6. A atuação tem um termo, e dela resulta alguma coisa.
  7. A operação, no Ser infinito, processa-se proporcionalmente à sua “natureza”.
  8. Toda operação implica um em que opera. É um termo da operação. O nada não pode ser termo da operação.
  9. O Ser infinito atua e não sofre; o ser finito em ato atua e sofre simultaneamente.
  10. O ser finito sucede porque não é tudo quanto pode ser.
  11. Só é possível o que não contradiz o ser.
  12. É possível o ser que pode ser real.
  13. Os possíveis estão contidos no poder do Ser infinito.
  14. Sem o ser necessário não haveria possíveis.
  15. O possível só pode fundar-se no ser, e não no nada.
  16. O critério da possibilidade e da impossibilidade é dado pela causa, e pela razão intrínseca de ser.
  17. O ser finito tem a sua razão de ser no Ser absoluto ou infinito.
  18. O ser do ser finito é dado pelo Ser Supremo.
  19. O ser finito não pode depender do nada, e sim do Ser absoluto.
  20. A eternidade existe toda de uma vez: o tempo, não.
  21. O conceito de negação implica o de afirmação. Nega é ainda afirmar, como afirmar é ainda negar.
  22. A perfeição ou é relativa ou é absoluta.
  23. Uma magnitude não pode ser de modo algum infinita.
  24. Essência e qüididade devem ser distinguidas.
  25. Há para os seres finitos uma lei dos limites.
  26. Nenhum ser é mais do que é.
  27. O ato é a realidade de sua plenitude de ser.
  28. Todo ser é unidade e toda unidade revela ser.
  29. Só pode devir o que já é. O devir implica o ser.
  30. O devir dá-se no ser finito, e não no Ser infinito.
  31. O Ser infinito não tem partes, e não é, enquanto tal, uma totalidade.
  32. Toda operação, além de diádica, é triádica, e o seu resultado (o operado) alcança o decenário.
  33. O número quantitativamente considerado é sempre finito.
  34. O Ser infinito é transcendente ao conjunto dos seres finito (ao Universo).
  35. O Ser Supremo não é o Todo.
  36. O Todo é transcendente de certo modo às suas partes.
  37. Todo ser, que não é tudo quanto pode ser, é um ser imperfeito.
  38. Todo ser imperfeito tem uma dupla finalidade: intrínseca e extrínseca.
  39. A unidade absolutamente do Ser Supremo é a razão da unidade de ser dos entes finitos.

Corolários

Do Ato

O ato é o princípio do agente, princípio da ação e termo da paixão.

O ato só pode ser com o que é em ato.

Ato é exercício de ser.

O que é em ato antecede ontologicamente ao que é em potência.

O que está em ato naturalmente move.

A potência ativa não se opõe ao ato, mas funda-se neste.

O que é em ato ou é uma forma subsistente em si mesmo, ou em outro.

O ato do Ser Supremo é um ato puríssimo.

   Sendo a operação proporcionada à forma, o ato desta é primeiro em relação ao ato da segunda.

Assim como é pelo ato que se distingue a potência, o ato se distingue dos outros pelos objetivos.

Os atos de diversas potências se distinguem pelo gênero.

A potência ativa não se distingue contra o ato, mas nele se funda.

 

Da Ação

A ação é ato do agente.

O ato do agente tende para algo determinado.

O ato do agente prossegue de um princípio que é algo determinado.

A ação e a paixão não são duas mutações, mas uma só (actio et passio sunt unus et idem motus).

A ação e a paixão diferem do sujeito apenas pela razão que são de espécies diversas.

O Ser Supremo atua em todo operante.

Nem toda a ação que se dá na criatura é criação. Contudo, toda ação da criatura é dependente do Ser Supremo, formal e efetivamente.

A ação pode ser transitiva e imanente. A imanente é a operação que se dá no operante; transitiva, a que transita para a coisa exterior separada do agente. A ação imanente é ato e perfeição do agente, não a transitiva, que é apenas do paciente. A ação, que produz transmutação da matéria, é ação física.

A ação transitiva implica necessariamente a paixão, não a imanente.

Toda ação da criatura difere realmente dela.

A ação é especificamente distinta do agente.

Os princípios da ação são: o agente, o fim a que tende e a forma que tem.

Nenhum agente atua desproporcionadamente à sua natureza.

Quanto mais potente é o agente mais pode difundir a sua ação.

Toda ação o é por alguma forma, que é princípio também da ação.

Mas a forma da ação não é a do agente, mas a do atuado, embora penda mais do agente que do paciente.

A ação não tem um ser em plenitude, por ser dependente do agente e, consequentemente, não pode anteceder a este. De modo algum é válido o juízo goetheano: “No princípio foi a ação. ”

Toda processão é relativa a alguma ação.

Nem toda ação do Ser Supremo é criação (quando se dá nas criaturas) [esta tese será provada mais adiante por outras vias].

A perfeição da ação é dada mais pelo fim a que tende do que pelo princípio (o terminus ad quem empresta maior perfeição que o terminus a quo).

 

Do Paciente e da Paixão

O sofrer determinações aponta a deficiência, que é real, na coisa, segunda o que é em potência.

Uma coisa sofre determinações na proporção das deficiências correspondentes à sua natureza.

Paciente é o ser deficiente que sofre a ação de um agente, e aquele é considerado tal em face deste.

  1. As coisas unem-se em totalidades substanciais (unum per se), não por suas diversidades, mas por suas afinidades a uma forma que, de certo modo, lhes é extrínseca.
  2. Só relativamente se pode afirmar a imutabilidade para as coisas dependentes.
  3. No ser finito, essência e existência se distinguem, como se distingue a sua forma da sua matéria.
  4. Um ente finito compõe-se, além do ser que é, do não-ser relativo que não é.
  5. O grau de realidade de “alguma coisa” é proporcionado à realidade da sua componência.
  6. O Ser é inteligível, e a inteligibilidade é a sua verdade.
  7. O modo distingue-se apenas modalmente do ser ao qual é inerente.
  8. Um ato é sempre atuante. A modal do atuado é a ação e esta é proporcionada à natureza daquele.
  9. A ação não é o ser, mas este, por ser perfeito, atua.
  10. Nenhuma entidade finita cósmica, e nenhuma entidade noético-abstracta (criada pelo homem) são subsistentes de per si e de per si suficientes, nem têm em si a sua última razão de ser.
  11. Os seres finitos dependem do Ser infinito e são eles produtos de um operar deste.
  12. O operar do Ser infinito, gerador dos seres finitos, é necessariamente ad extra (exteriorizador), e a operação que surge é o que se chama Criação.
  13. A criação não se dá ex-nihilo absoluto.
  14. O Ser infinito, como forma, como operar e como unidade absoluta, é sempre UM.
  15. O Ser infinito (Ser Supremo) tem consciência de si. O Ser infinito é pessoa.
  16. O que resulta do operar ad extra do Ser infinito é sempre menor que o operador.
  17. O ser finito, que é a criatura, não pode ser maior nem igual ao Ser infinito, e sim menor e em semelhança.
  18. O Ser infinito é causa de todos os efeitos, e estes não podem ser infinitos.
  19. A ação do Ser Supremo sobre todas as coisas não se dá nunca à distância em sentido absoluto.
  20. Não é a ação o fundamento da indistância do Ser Supremo e das coisas fora dele, mas a imensidade daquele é que é o fundamento.
  21. É ontologicamente falsa a mutabilidade absoluta.
  22. A imutabilidade do Ser Supremo é necessariamente absoluta infinitamente.
  23. Todas as coisas, sob algum aspecto, são imutáveis.
  24. A presença do Ser Supremo é absoluta.
  25. O ser finito é sempre diádico.
  26. Na criação, o escolhido é atualizado, e o preterido é virtualizado.
  27. O Ser Supremo como operar não é um mero participante do Ser Supremo como forma.

Corolários

A forma dá por si mesma o ser em ato a uma realidade, pois é ela por essência um ato. Ela não dá o ser por intermediário.

A última diferença específica é a mais perfeita no ente, porque é a mais determinada.

A última diferença específica é a mais perfeita no ser (ente), pois é ela que acaba a essência da espécie.

Só é subsistente, e de per si, o ser que não é nem acidente, nem forma material, nem seu ser parte de um ser. Assim o é o Ser Supremo.

A natureza de uma realidade é revelada pela sua operação.

Nenhum ser pode engendrar a si mesmo.

Um ser age na proporção que está em ato, e, segundo o que está em ato, age. É    pela forma que um ser age.

Os seres, cujas atividades próprias são diferentes, pertencem a espécies diferentes.

A diversidade na espécie é sempre acompanhada de uma diferença na essência.

Há uma mesma relação entre as causas universais e seu efeito universal, que entre as causas particulares e seu efeito particular.

  1. O Ser dependente participa do infinito e da eternidade.
  2. O nada-relativo, quando contraditório, é absurdo.
  3. Há uma atualidade inversa à da determinação.
  4. À infinitude potencial ativa do Ser infinito corresponde uma infinitude potencial passiva.

Corolários – Da Criação

A criação está subjetivamente na criatura, como, porém, é causada pelo Ser Supremo, é anterior àquela.

A criação não é uma mera mutação, mas a emanação universal do ser, partindo do nada subjetivo do ser criado.

A criação simples não pode ser operada por seres criados.

A criação é a produção da coisa, segundo toda a sua substância, sem ser dela pressuposto nada anteriormente, sem qualquer matéria prejacente, da qual algo seja feito.

Nenhum corpo pode criar.

Só o Ser Supremo pode criar, por ser simplicíssimo.

Criar exige uma potência ativa infinita e uma infinita potência passiva.

Todo ser (ontos) fora do Ser Supremo é criatura.

Criar é o produto da primeira ação ad extra do Ser Supremo.

Toda criatura é mutável.

  1. À realidade atual corresponde uma atualidade inversa.
  2. Determinar implica a determinação, e esta a determinabilidade do determinado. À infinita potência ativa corresponde uma infinita potência passiva.
  3. Todo atuar do agente realiza uma ação, e esta é sempre seletiva.
  4. A potência passiva infinita não é o Ser Supremo, mas provém do seu operar ad extra.
  5. Ato e potência (enérgeia e dynamis) são diferenças últimas do ser finito.
  6. As diferenças últimas são de criação imediata do Ser infinito, e por elas começa a criação.
  7. A privação é componente do ser finito.

Corolários

Um ser finito, como causa, é uma causa finita e deficiente.

Só o ser simplicíssimo é uma causa infinita.

A criação simples exige um ser infinito, portanto, simplicíssimo.

Tudo quanto não é contraditório em si, ou seja, que não é intrinsecamente nada, é possível. Todo possível é do Ser Supremo. Todo possível pode tornar-se termo de criação, pois, do contrário, afirmar-se-ia a sua absoluta inviabilidade. Ora, tal inviabilidade seria extrínseca ao Ser Supremo e, por isso, uma limitação à sua omnipotência, o que seria contraditório. Impossível, de modo absoluto, só se pode predicar do que é fundamentalmente contrário. O que é fundamentalmente contrário é absolutamente nada.

O ser finito caracteriza-se pela ausência das perfeições possíveis, não só do seu gênero, como de sua espécie e de sua espécie especialíssima. Nunca é tudo quanto poderia ser. Por essa razão, nunca se unívoca simplesmente com o Ser Supremo, mas apenas se análoga com ele.

  1. À infinita potência ativa do Ser Supremo corresponde uma infinita potência passiva.
  2. O Meon não é ser, é não-ser e, como tal, potencialmente infinito.
  3. O Menos não é um infinito de não ser que cerque a infinitude do Ser Supremo.
  4. O Meon é outro do Ser Supremo e não outro ao Ser Supremo.
  5. O Menos é infinitamente potencial
  6. Ao Haver Supremo corresponde o Não-Haver.

Corolários

 

O Meon não tem essência nem existência.

O Meon não tem forma.

O Meon não se opõe ao Ser.

O Meon é outro que ser; é não-ser.

  1. A Criação exige necessariamente o Meon.
  2. A omnipotência do Ser Supremo também afirma o Meon.
  3. O Meon não é nenhum grau de ser.
  4. Os possíveis implicam o Meon.

Corolários

A potência ativa do Ser Supremo é inexaurível, como é inexaurível a potência infinita passiva do Meon.

O preterido na criação constitui o epimeteico criador, como o criável é constituído pelo prometeico criador.

Os possíveis criaturais são dependentes das razões ontológicas do Ser Supremo, e a sua natureza não consiste em outro ser que este.

Os possíveis não implicam composição no Ser Supremo, e não contrariam a tese da sua infinita simplicidade.

  1. Há, no limite, uma limitação.
  2. O conceito de limite é inseparável do de ilimitado.
  3. O limite do ser finito caracteriza-se pela positividade.
  4. O ser finito não é tudo quanto pode ser.
  5. O ser é eficácia, e o ato é o ser em sua eficiência, no seu pleno exercício de ser.
  6. O mais perfeito tem de preceder ao menos perfeito.
  7. Sob certos aspectos, preexistir pode ser mais perfeito que existir. Impõe-se a distinção entre perfeição ontológica e perfeição ôntica.
  8. O ser finito nunca é absolutamente idêntico a si mesmo.
  9. O ser finito não poderia receber totalmente o Ser infinito.
  10. Há proporcionalidade entre causa e efeito.
  11. Um ser é o que é em sua forma.
  12. O Ser infinito é causa eficiente primeira de todos os entes finitos.
  13. A ideia do ser é a mais abstrata e a mais concreta de todas as ideias.
  14. Em serem, todas as coisas se univocam.
  15. Todo ente contingente é causado.
  16. O que se move é por outro movido.
  17. Um corpo móvel, considerado abstratamente em si mesmo, sem as coordenadas da ubiquação, seria imóvel????.
  18. O devir não é o Ser, mas é produzido por este.
  19. O absurdo deve ser entendido como absoluto e como relativo.
  20. O universo como totalidade implica necessariamente um ser necessário.
  21. A realidade implica em poder de tornar real o possível.
  22. O ser finito é um composto de ato (enérgeia), potência (dynamis) e privação. Esta última é também positiva.
  23. A ordem dos possíveis é potencialmente infinita.
  24. O ser ficcional tem de certo modo uma positividade.
  25. A inexistência deve ser considerada como relativa e como absoluta.
  26. A criação dá-se com a temporalidade.
  27. A temporalidade não contradiz a eternidade. A contrariedade entre ambas é harmônica.
  28. O não poder criar um ser infinito e omnipotente é uma falsa atribuição ao Ser Supremo.
  29. A aparência tem certa positividade.
  30. A deficiência tem um conteúdo ontológico.
  31. Todo ser finito tem um arithmós (número).
  32. Ontologicamente, o que é realmente possível quanto ao ser, é.
  33. Tudo o que acontece tem uma razão de ser.
  34. A possibilidade de um ser decorre da sua essência.
  35. O ser finito, que é, não foi um puro nada antes de ser, nem será um puro nada depois de ser.
  36. O Ser Supremo pode realizar toda hierarquia de ser.
  37. Todo ser finito está necessitariamente conexionado a um antecedente; contingente a um consequente finito, e necessariamente sempre ao Ser infinito.
  38. As coisas podem “eludir” a ordem das causas particulares não a da universal.
  39. Todo ser é um bem.
  40. Todo ser finito apetece a um bem.
  41. Todo ente finito tem uma emergência e sofre a ação da predisponência.
  42. No Ser absoluto, tudo quanto é possível é já simultânea e atualmente do seu poder.
  43. A simultaneidade e a sua sucessividade nos seres finitos são relativas.
  44. A aptidão do ser finito aponta sempre a uma emergência.
  45. A privação não é uma negação simples (absoluta) do ser.
  46. Os esquemas abstracto-noéticos são em parte ficcionais e em parte reais.
  47. O mal é privação de bem, e é, na privação, que tem a sua positividade. A positividade do mal impede que haja um mal absoluto, pois este seria nada absoluto, o que é absurdo.
  48. O universal é a unidade no múltiplo.
  49. Sendo o Ser infinito o supremo bem não destruiria a si mesmo.
  50. Os seres finitos interatuam-se, e ás suas ações sobre correspondem reações proporcionadas a estes.
  51. O universo cósmico, enquanto totalidade, é uma unidade de simplicidade, sem ser absolutamente simples.
  52. Por ser o universo cósmico uma unidade de simplicidade, não se pode concluir desde logo que é uma unidade necessariamente constante.
  53. O devir dos entes em nada aumenta nem diminui o Ser, sustentáculo primeiro de todos os entes.
  54. As distinções entre os entes não indicam que sejam totalmente separados uns dos outros.
  55. As oposições não contradizem a ordem do ser.
  56. Todo ser finito é contingente e necessário de certo modo.
  57. O infinito potencial fundamenta-se no infinito ativo qualitativo.
  58. É impossível um infinito corpóreo.
  59. A matéria física caracteriza-se pela dimensionalidade específica.
  60. A matéria é um ser finito e finitizável.
  61. O que é dimensional é quantitativamente numerável potencialmente “in infinitum”.
  62. A matéria física, contudo, revela certa infinitude.
  63. A forma não tem a dimensionalidade da matéria física.
  64. Materialidade e corporeidade devem ser distinguidas.
  65. Potência é aptidão para receber determinações; materialidade, aptidão para receber formas.
  66. Os efeitos estão na potência ativa da causa, mas esta encontra seus limites na matéria.
  67. Forma in re é limitada pela matéria, mas formalmente considerada é ela que limita a matéria.
  68. A criação ab-aeterno não implica contradição ontológica.

Corolários

O ser em ato da matéria vem-lhe da forma substancial.

Um ser é passivo na proporção da sua matéria, e ativo na proporção da sua forma.

A matéria está em potência para receber todos os atos finitos, segundo uma certa progressão. O primeiro entre tais atos deve ser encontrado primeiramente na matéria, e o primeiro ato é ser finito.

O princípio do sendo (ente) é a forma.

A matéria recebe o ser atual (finito cronotópico) porque recebe a forma.

Há matéria onde se encontram as suas propriedades.

A potência é proporcionada ao ato.

As dimensões são acidentes que pertencem à forma corporal, a qual convém a toda a matéria já informada.

Só o princípio ativo é que dá à matéria o ser em ato, e é causa da unidade.

A forma finita cronotópica é determinada pela natureza da matéria, do contrário não haveria proporção entre ela e a forma.

É a forma o princípio de distinção para a matéria, considerada esta em sua simplicidade, pois diversas matérias são diversas em relação a formas diversas.

Se a matéria fosse o princípio da distinção, uma não se distinguiria de outra senão através das divisões da quantidade.

A forma dá o ser das coisas finitas, sem ser o ser dessas coisas.

A forma determinada as condições da matéria à qual está unidade naturalmente.

A matéria está ordenada à forma.

O gênero é determinado segundo a matéria, e a diferença específica o é segundo a forma.

Toda potência receptriz, que é ato de um corpo, recebe a forma sob um modo material e individual, pois a forma é recebida segundo o modo de ser do que a recebe.

Corpo é o tridimensional tópico e sucessivo no tempo.

Nenhum corpo pode ser infinito em ato. Um corpo infinito não poderia ser movido.

Todo corpo é um móvel, e está sujeito à alteração.

O limite dos corpos são as superfícies.

Todo corpo está em potência.

  1. Há uma duração incriada e uma duração criada. Esta é ora permanente, ora sucessiva.
  2. À proporção que a forma é de um grau mais elevado, mais ela domina sobre a matéria corpórea, menos é imersa nela, e mais a ultrapassa por sua atividade e por sua potência.
  3. A alma humana não é físico-material.
  4. O entendimento humano não percebe as coisas segundo o modo de ser delas, mas segundo o modo de ser dele.
  5. O intelecto humano é sempre ativo-passivo em sua funcionalidade.
  6. Nas tensões, há o surgir de algo novo que não contradiz a ordem ontológica.
  7. Se o Ser infinito fosse apenas o Todo, assim mesmo em algo o transcenderia.
  8. O poder unitivo do ser é absoluto.
  9. Necessariamente, há uma substância separada, de per si subsistente.
  10. Há, necessariamente, substâncias separadas.
  11. As tensões esquemáticas, tomadas separadamente e em crise, incluem-se conjuntos esquemáticos.
  12. O fundamento do universo não pode ser a qualidade.
  13. O fundamento do universo não pode ser a quantidade.
  14. O Ser infinito não é substância.
  15. A substância não pode ser o fundamento último do universo.
  16. Os valores podem ser relativos ou absolutos, mas os desvalores só podem ser relativos, nunca absolutos.
  17. As perfeições, enquanto estruturas ontológicas, não são individuais.
  18. O universo não será aniquilado.
  19. O universo não pode ser obra do acaso.
  20. O nihilismo e a acosmia moderna são apenas ficcionais.
  21. Algo tinha de ser e não o nada. Resposta à pergunta heideggeriana: Por que antes o ser do que o nada?
  22. O conhecimento por um ser finito é consequentemente finito.
  23. Há seres imateriais e seres espirituais finitos.
  24. A Filosofia só é sólida quando concreta.
  25. Sistema é uma multiplicidade de conhecimentos conexionados e subordinados à normal de uma totalidade.
  26. Há um sistema da razão e um sistema da natureza.
  27. A Ciência busca o “como” e o como do “porquê” próximo das coisas, mas a Filosofia é um afanar-se pelo “porquê” do “como” e pelos últimos “porquês” dos “porquês”.
  28. Se a Filosofia tem vários métodos para alcançar a sua meta, uns são indubitavelmente mais hábeis que outros, e um há de haver que será o mais hábil para ser usado pelo homem.
  29. Filosofar é ação.

 

 

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