Fonte: Mário Ferreira dos Santos, em “Análise de Temas Sociais”, Tomo III.

 

O nacionalismo que animou os pequenos estados alemães a erguerem-se contra Napoleão e seus libertadores teve um surto que, posteriormente, pela acção inegável de muitos autores, que serviram de intêresses de políticos ambiciosos, gestou os fundamentos do nacionalismo alemão, que teria de desembocar, fatalmente, no nazismo como síntese de socialismo e nazismo, do nacional-socialismo alemão.

Uma das personalidades a quem cabe a maior culpa, ou pelo menos a quem mais se atira a culpa desse nacionalismo, foi Hegel, o inspirador simultâneo do nazismo e do marxismo, dois filhos da sua doutrina, opostos, adversários, mas analogados em muitos aspectos como ainda veremos.

Hegel tornou o Estado a expressão da Divina Idéia concrecionada na Terra. É a marcha de Deus através do mundo, um organismo com consciência e pensamento, seus atributos essenciais, cuja realidade é necessária, e que existe por si e para si. Nunca se endeusou tanto o Estado, também nunca se endeusou tanto um filósofo, como o foi Hegel pelos autoritários prussianos e pelos filósofos alemães de então, cuja maioria o proclamava o supremo ditador da filosofia, apesar de muitos, de inegável valor e dignidade, terem-se oposto às suas doutrinas.

A lei é uma manifestação da vontade, dizem êles, mas de quem? Do Estado, afirmar os estatólatras; da nação, afirmam os nacionalistas; do povo, afirmam os democráticos; do proletariado, afirmam os marxistas e os socialistas autoritários em geral.

Deu-se uma vontade ao povo, à nação, à classe, uma vontade e uma consciência, que se transformaram em supernacionalidades hipostasiadas, criações do colectivismo romântico.

Marx substituiu o Espírito de Hegel pela matéria e pelos interêsses econômicos, do mesmo modo que o nazismo substituiu o Espírito pela Raça. E, então, quando Hegel afirmava que o Espírito é o propulsor da história, o senhor do espetáculo da História, Marx substituindo o têrmo Espírito, afirmava: A Matéria e os interêsses econômicos são os propulsores da História, os senhores do espetáculo da História, Hitler substituindo pela Raça, poderia dizer: a Raça é a propulsora da História, a senhora do espetáculo da História.

Em Marx, o Espírito vira de cabeça para baixo, e vira Matéria; em Hitler, torna-se Sangue. Essa é a inversão de que tanto êles se orgulharam.

O arsenal dos argumentos é o mesmo para todos. Não foram proporcionados apenas por Hegel, pois já vinham de antigas pilhagens de outras aventuras intelectuais do Renascimento, das lutas que procuravam impor o direito dos príncipes contra a concepção da Igreja, defensora das pequenas pátrias, a fim de acautelar e impedir as grandes guerras destructivas, e partir, a pouco e pouco, para uma maior unidade dos cristãos, que acima dos particularismos nacionalistas, deviam pôr a idéia da Humanidade em Cristo, e torná-la universal, católica (de Kath’olon, em grego, universal), vencendo os obstáculos, que impediam a fraternidade universal e que reinasse a paz entre os homens de boa vontade.

Um conjunto de esquematismos gira em tôrno da idéia nacionalista. Podemos alinhar alguns:

a) O Estado é a encarnação do Espírito (Hegel), ou Raça (Hitler) ou da Ditadura do Proletariado (Marx). Uma raça eleita deve conquistar o mundo (Hitler) ou um Estado eleito deve dominar o mundo (Hegel) ou uma classe eleita deve dominar o mundo (Marx);

b) O Estado é independente e liberto de tôda obrigação moral. Deve realizar seus fins, sejam quais forem os meios (Os fins justificam os meios, é do patrimônio de todos, de Hegel, Marx, Hitler);

c) Para realizar seus fins é mister uma guerra impiedosa e totalitária (também do patrimônio de todos);

d) Portanto, impõe-se uma vida heróica, que não tema os perigos, que viva perigosamente a grande façanha de realizar o ideal (também do patrimônio de todos);

e) Realizar-se-á, finalmente, o Grande Homem do amanhã (o germano superior de Hegel e Hitler, o revolucionário de Marx). O Estado não é a meta final, mas sim a fusão deles com o ideal-typus preconizado;

f) Treitsche, historiador prussiano, conclui: “A guerra não é só uma necessidade prática, mas também uma necessidade teórica; uma exigência da lógica. O conceito de Estado implica o conceito de guerra, pois a essência do Estado é o Poder. O Estado é o Poder organizado como poder soberano.”

g) O Estado não está sujeito a nenhuma norma superior; êle é a lei, tanto a moral como a jurídica;

h) Os Estados podem estabelecer acordos mútuos entre si, porém não são obrigados a cumpri-los, porque seria violentar a sua soberania (Tese de Hegel);

i) Quando os Estados não encontram uma solução para as suas pendências, a guerra deve procurar resolvê-las (Tese de Hegel);

j) O bom êxito justifica tudo (Tese de Hegel). O bom êxito é o único juiz da História;

k) O despôjo será do forte, que expropriará os mais fracos (Tese de Freyer, aceita por todos os autoritários).

l) O ataque é sempre a melhor defesa (Tese aceita por todos os totalitários);

m) A moralidade particular, a filantropia, a caridade não são guias do Estado poderoso (Tese de todos, que renegam qualquer consideração aos direitos alheios);

n) Não se deve vacilar na propaganda ante o emprêgo da infâmia, da calúnia, da mentira. O êxito justifica tudo. “Caluniai, caluniai, que alguma dúvida ficará…” Todos os poderosos totalitários aconselharam essa prática. Lenine justificou-a várias vêzes, e aconselhou-a aos bolchevistas.

o) A guerra evita a corrupção, que é gerada por uma paz muito prolongada. (Tese de todos os totalitários);

p) Todo o bem conquistado em favor do Estado é justo (Tese universal de todos os dominadores);

q) Só a guerra viriliza os homens e impede que se enfraqueçam. A política, na paz, só é justificada se prepara uma boa guerra (Assim pensaram sempre os poderosos). A guerra é a forma mais perfeita de actividade do Estado (Tese de Max Scheler, existencialista, mas aceita por todos os totalitários). A guerra é um bem precioso e raro (Hegel);

r) O humanitarista não é um regulador da História. O homem adultera-se pela idéia humanista (Tese de Rosenberg, filósofo nazista);

s) Há uma missão histórica a ser cumprida, para qual está predestinado o Espírito (Hegel), a raça (Hitler), a classe (Marx). São os novos messias. É preciso amar êsse destino.

t) O homem é um animal heróico. Tese de todos, de origem tribalista. O culto ao herói guerreiro é uma reminiscência de um primarismo humano. a suprema bem-aventurança é a camaradagem guerreira (de origem tribal e ímpeto de retôrno à tribo);

u) Não há princípios morais acima do Estado. Tudo deve subordinar-se ao Estado como encarnação, ou da nação, da raça, ou da classe, etc;

v) A tese aceita é dogmática e a expressão viva da Verdade. Qualquer opinião em contrário é herética e blasfemática, e quem a profere deve ser eliminado. (Tese de todos os totalitários);

x) A vontade individual deve subordinar-se à vontade colectiva, representada pelo Estado, como encarnação de Deus, Raça, Classe, etc;

y) O ideal preconizado é inevitável, e sua vitória final é determinada necessariamente pela História (Tese universal dos totalitários);

z) O terror preventivo é o melhor meio de impedir as tentativas da oposição. A admissão de partidos é absurda, porque só há uma verdade, a do Estado, como encarnação de … (Tese universal).”

 

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