(Fonte: Capítulo “Uma Fênix Vai Renascer” do livro Quando Os Livros Foram À Guerra”, de Molly Gupitill Manning)

Em 10 de maio de 1933, nem mesmo a chuva fina que caía sobre Berlim não diminuiu o júbilo que cercava a grande parada. Milhares de estudantes, vestindo com orgulho as cores de suas universidades, caminharam pelas ruas esfumaçadas pelas luzes brilhantes das tochas, dirigindo-se para a Bebelplatz, a praça situada entre a Universidade Friedrich Wilhelm e a Ópera de Berlim. Quarenta mil pessoas aglomeravam-se na praça para assistir ao espetáculo, enquanto outras 40 mil se reuniam marchando junto à parada. No centro da Bebelplatz, uma maciça pira de toras cruzadas, de mais de 3,5 metros de largura e 1,5 metro de altura, aguardava. Quando os primeiros manifestantes chegaram, jogaram as tochas sobre aquela peculiar estrutura. Chamas azuis subiram em direção ao céu. Era uma visão de tirar o fôlego. Pouco tempo depois, da estrutura de toras irrompeu uma massa de fogo.

fogo

Enquanto isso, uma procissão de automóveis parou ao redor da Bedelplatz em todo o seu perímetro. Alguns estudantes formaram uma fila bem-organizada entre os carros e as chamas crepitantes. A multidão viu um estudante aproximar-se do primeiro veículo e tirar um livro de uma pilha amontoada em seu interior. Então, o livro foi passado de mão em mão até chegar ao estudante parado mais próximo da fogueira, que o arremessou nas chamas. A multidão irrompeu em aplausos. Dessa mesma maneira, um livro depois do outro chegou rapidamente ao fogo. Alguns estudantes carregavam o máximo de livros que podiam, marchando entre os carros e o inferno, alimentando o fogo cada vez que chegavam até ele.

A incineração foi interrompida apenas por um momento, para que um dos estudantes fizesse um discurso sobre o objetivo daquele ato. Para assegurar a pureza da literatura alemã, afirmou ele, era necessário queimar todos os livros e documentos “não alemães” que ameaçavam o movimento nacional da unidade nazista. Isso incluía todas as obras de autores judeus, já que “o judeu, que é poderoso em intelecto, mas fraco de sangue (…) continua sem ser compreendido na presença do pensamento alemão, não consegue dignificá-lo e, portanto, está destinado a ofender o espírito alemão”. A destruição desses livros tornaria o país mais forte, libertando-o das ideias hostis ao progresso da Alemanha. Quando a queima recomeçou, outro estudante anunciou os nomes dos autores cujos livros estavam sendo destruídos, e explicou por que suas ideias eram nocivas para a Alemanha. Sigmund Freud foi denunciado por falsificar a história alemã e degradar suas grandes figuras. Emil Ludwig foi criticado por sua “desonestidade literária e alta traição contra a Alemanha”. Erich Maria Remarque foi condenado por denegrir a língua alemã e os ideais nacionais. Escritor após escritor fora mencionado. Livro após livro fora queimado, e a multidão vibrava como se estivesse assistindo a um evento esportivo. E isso prosseguiu durante horas, noite adentro.

Embora tivesse sido espalhado o boato de que a queima dos livros fora planejada exclusivamente por uma organização estudantil fanática, ficou claro que sua realização se deu sob a bênção do Partido Nazista depois que o Dr. Paul Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, chegou para fazer um discurso. Goebbels supervisionava a Câmara de Cultura do Reich, que regulamentava a literatura, a imprensa, o rádio, o teatro, a música, as artes plásticas e o cinema da Alemanha. Ele usava sua influência para moldar a sociedade alemã e ajustá-la à ideologia de Hitler. Goebbels desconfiava dos autores politicamente progressistas, que defendiam causas como pacifismo, socialismo, reforma e liberdade sexual. Os livros que aludiam a esses temas foram condenados à fogueira.

Quando Goebbels subia na tribuna decorada com suásticas, declarou que “o intelectualismo judeu esta ‘morto’ e que o ‘nacional-socialismo’ tinha ‘desbastado o caminho’ “. Gesticulando para o público diante dele, continuou:

“A alma do povo alemão pode voltar a se expressar. Essas chamas não só iluminam o ponto final de uma velha era, mas também iluminam uma nova. Nunca antes os jovens tiveram tal direito de limpar os escombros do passado. Se os velhos não entendem o que está acontecendo, deixem que eles compreendam que nós, os jovens, avançamos e fizemos acontecer. O velho arde em chamas; o novo será moldado a partir das chamas de nossos corações.”

Após o discurso de Goebbels, a canção “A nação às armas” ecoou pelo ar da noite e os estudantes voltaram a arremessar os livros na montanha de fogo.

Para assegurar que a queima de livros em Berlim tivesse grande audiência, o ato foi transmitido ao vivo pela rádio e filmado. Em pouco tempo, os cinemas de toda a Alemanha exibiram o filme da fogueira em Berlim, com comentários que explicavam que livros nocivos erodiam os valores alemães e deviam ser destruídos. Depois que essa mensagem se disseminou, 93 outras queimas de livros foram realizadas, todas atraindo grandes plateias e massiva cobertura da imprensa. Os alunos da Universidade de Kiel reuniram 2 mil exemplares de literatura considerada prejudicial ao espírito alemão, ergueram uma gigantesca fogueira e convidaram o público a assistir à queima dos livros tidos como nocivos. Em Munique, os estudantes lideraram uma vívida parada à luz de tochas antes de pegar 100 volumes pesados da biblioteca da universidade para serem queimados em público. Em outro evento, também em Munique, 5 mil alunos do ensino médio se reuniram para queimar literatura marxista, e foram encorajados a “ver o fogo queimar aqueles livros não alemães, e deixar arder em seus corações o amor à pátria”. Em Breslau, mais de duas toneladas de obras heréticas foram destruídas em um único dia.

Enquanto a queima de livros se espalhava pela Alemanha, os nazistas também miravam nos indivíduos que alimentavam ideias antinazistas. Aqueles suspeitos de terem visões contra a Alemanha ficaram sujeitos a buscas domiciliares; se algo censurável era encontrado, os transgressores eram punidos. Alguns jamais foram vistos novamente. Uma histeria silenciosa se disseminou; muitas pessoas destruíram preventivamente documentos e livros que podiam lhes causar problemas. De acordo com um relato, quando uma mulher recebia um aviso de que deveria garantir que sua casa estava “realmente limpa”, ela “imediatamente queimava seus livros e papéis, e, no dia seguinte, passava por uma busca”. Os nazistas publicaram listas de livros a se queimar; entre os autores mencionados incluíam-se Karl Marx, Upton Sinclair, Jack London, Heinrich Mann, Helen Keller, Albert Einstein, Thomas Mann e Arthur Schnitzler.

Helen Keller escreveu uma carta emocionada para os estudantes alemães, expressando seu choque e sua incredulidade quanto ao fato de que o lugar de origem da prensa tipográfica tivesse se tornado um crematório para os frutos dessa invenção. “Se vocês acham que podem matar as ideias, a história não lhes ensinou nada”, repreendeu ela. “Os tiranos muitas vezes tentaram fazer isso antes, e as ideias se ergueram com toda a força e os destruíram.” “Vocês podem queimar meus livros e os livros das maiores mentes da Europa, mas as ideias neles já se infiltraram através de milhões de canais e continuarão a estimular outras mentes”, afirmou ela.

Outros se juntaram a Keller na censura à juventude alemã. Sinclair Lewis, vencedor do Nobel de literatura, denunciou a queima de livros, afirmando que as obras que estavam destruindo eram “alguns dos livros mais nobres editados na Alemanha nos últimos vinte anos”. Acrescentou que os autores cujas obras eram lançadas nas chamas “deviam só sentir satisfação em receber essa homenagem involuntária de uma turba organizada”. Em Londres, H. G. Wells proferiu um discurso desafiador contra a intolerância, ecoando alguns dos mesmos sentimentos de Keller. As queimas de livros “jamais destruíram um livro”, afirmou Wells, pois “os livros, depois de impressos, possuem uma vitalidade que supera qualquer ser humano, e continuam falando como se nada tivesse acontecido”. “Tenho a impressão”, prosseguiu ele, “de que o que está acontecendo na Alemanha é uma revolução tosca e grosseira contra o pensamento, a sensatez e os livros”. Embora admitisse que não se sentia seguro na Inglaterra, e acreditasse que os escritores poderiam um dia ser linchados ou enviados a campos de concentração por causa do perigo perceptível que seus livros representavam, ele encontrou consolo numa ideia singular. “A longo prazo”, disse Wells, “os livros vencerão, e as pessoas serão subjugadas, e o juízo são acertará contas com toda a retórica vociferante desses insurgentes”. Enquanto isso, Wells se opôs às ações alemãs providenciando um refúgio para os títulos em perigo. Com a cooperação de outros autores, Wells criou a Biblioteca dos Livros Queimados, inaugurada em Paris na primavera de 1934. A biblioteca abrigou exemplares de todos os livros proibidos ou queimados pelas nazistas, e manteve a salvo escritos e livros doados por refugiados alemães e qualquer um que achasse que seus livros corriam riscos.

Os editores norte-americanos também manifestaram sua desaprovação. Parecia incoerente que as universidades, que foram por muito tempo uma glória importante da Alemanha, tivessem se transformado em uma de suas vergonhas, declarou um jornal. O New York Times alcunhou as ações alemãs como “holocausto literário”, comentando que “aquela exibição do novo espírito nacional, tolo e vergonhoso como parece, indica um movimento de massa claramente tocado pela insanidade.” A revista Time referiu-se aos incidentes como um “bibliocausto”, e relatou detalhes assustadores, incluindo a informação de que uma banda tocara a “Marcha Fúnebre” de Chopin enquanto os livros eram lançados na fogueira em Römerberg, o mercado medieval de Frankfurt. Muitos norte-americanos se reuniram em protestos públicos: 80 mil em Nova York, 50 mil em Chicago, e 20 mil na Filadélfia.

Como a Alemanha, país de povo instruído, conhecido por seus filósofos e pensadores, podia tolerar o expurgo de suas bibliotecas e a destruição de seus livros? Esses atos não eram casos isolados, mas, sim, peças de um plano cuidadosamente organizado, idealizado por Adolf Hitler, para manipular a cultura alemã de acordo com suas políticas e seus dogmas. Depois que chegou ao poder, Hitler aprovou leis para assegurar obediência à nova ordem que estava estabelecendo. Por exemplo, em 1935, Mein Kampf (Minha luta) tornou-se leitura imposta pelo Estado; um exemplar era dado de presente para cada casal que oficializava sua união, e foi adotado como livro didático em todas as escolas alemãs.

O envolvimento do Führer na transformação das instituições culturais alemãs, para sustentar suas políticas, estendeu-se muito além dos livros. Hitler trabalhou para criar a impressão de que só alemães de sangue puro tinham realizado contribuições significativas cultural e artisticamente, dignas de exibição em museus. Ele criou um novo feriado: o Dia da Arte Alemã. Como líder das festividades do dia, selecionava os trabalhos artísticos que seriam exibidos, e concedia os melhores prêmios para as obras que considerava ideologicamente apropriadas. Além disso, Hitler decretava o local das galerias onde cada uma dessas obras seria exposta e definia o valor de cada criação. As obras que reforçavam sua visão da Alemanha eram expostas em destaque, e seus preços eram proporcionalmente altos. Da mesma forma, os museus foram “purificados” por Hitler e Goebbels, que proibiram a exibição de obras criadas por judeus e outros artistas considerados inferiores aos alemães de sangue puro. Ao expor somente as obras que proclamavam as realizações da raça ariana, Hitler pretendia dar a impressão de que só elas eram capazes de trazer glória à Alemanha.

A educação foi reestruturada para refletir a ideologia hitlerista. No mesmo dia da queima dos livros em Berlim, Dr. Wilhelm Frick, ministro do Interior alemão, fez uma preleção aos administradores escolares alemães sobre as mudanças no sistema educacional. Ele ordenou que aos estudantes fosse ensinado “tudo que concerne à pátria e à história alemã, com ênfase especial em relação aos últimos vinte anos” e a “ciência racial, hereditariedade e genealogia”. Quanto ao último caso, Frick explicou que as escolas deviam “enfatizar sistematicamente que a infiltração de sangue estrangeiro no povo alemão, sobretudo sangue judeu e negro, devia ser totalmente impedida”, e que as aulas de “biologia racial também deviam apresentar as diferenças mentais e espirituais entre as diferentes raças, e deviam deixar claro aos alunos os perigos da deterioração racial”. De acordo com as diretrizes de Frick, as crianças eram instruídas no sentido de que os alemães de sangue puro eram a raça superior. Simultaneamente, os professores judeus e de tendência esquerdista foram demitidos; em certas escolas, as demissões alcançaram até 33% do quadro de funcionários.

Hitler também explorou o rádio e o cinema para levar suas ideias aos lugares mais remotos. A transmissão de rádio era considerada um meio eficiente para dar publicidade e assegurar obediência às ordens do Führer. Goebbels se empenhou para que os aparelhos de rádio não custassem caro a fim de que as famílias de toda a Alemanha pudessem ouvir as mensagens de Hitler. Os estúdios de cinema alemães eram pressionados a produzir filmes de entretenimento que contivessem propaganda, e Hitler e Goebbels trabalhavam pessoalmente com os produtores para conferir se a visão deles da Alemanha era adequadamente refletida nas telas. Goebbels detinha grande poder: aprovava roteiros, vetava a produção de “não alemães” e determinava se filmes prontos eram dignos de ser exibidos. Quando o público criticou os filmes tolos e cheios de propaganda exibidos nos cinemas alemães, Goebbels responsabilizou os críticos cinematográficos por incutir essas ideias em suas resenhas. Em 1936, a crítica cinematográfica foi proscrita.

Em 1938, os nazistas já haviam proibido dezoito categorias de livros, 4.175 títulos e as obras completas de 565 autores, muitos deles judeus. No entanto, alguns autores judeus permaneciam nas prateleiras, para frustração absoluta dos nazistas. Os jornais alemães publicavam cartas furiosas censurando as instituições que permitiam a influência contínua dos escritores judeus. Os bibliotecários alemães eram forçados a pesquisar cuidadosamente seus acervos e assegurar que cada livro hostil às políticas de Hitler fosse eliminado.

Naquele ano, as políticas nazistas passaram dos livros para as pessoas. Em 18 de outubro de 1939, Hitler deportou mais de 12 mil judeus poloneses da Alemanha, dos quais somente 4 mil tiveram permissão para ingressar na Polônia, e milhares foram deixados abandonados na fronteira entre a Alemanha e a Polônia. No dia 7 de novembro de 1938, quando Herschel Grynszpan, jovem judeu que vivia na França, soube que sua família estava entre aquelas que padeciam na fronteira sem comida ou abrigo, invadiu a embaixada alemã em Paris e, num acesso de fúria, matou com um tiro Ernst vom Rath, diplomata alemão.

Esse incidente desencadeou uma onda de terrorismo antissemita na Alemanha. Em 9 de novembro, a notícia do assassinato tinha se espalhado, e violentas demonstrações antijudaicas irromperam em Berlim. Grupos de jovens percorreram a cidade, quebrando vitrines de lojas com barras de metal e armas de fogo. Lojas foram invadidas, a mercadoria, jogada nas ruas, e os saqueadores avançaram como abutres. O New York Times relatou que gangues de jovens alemães, que aparentemente eram funcionários públicos ou membros do Partido Nazista, depredaram lojas e propriedades de judeus, enquanto os espectadores zombavam e riam. Até o fim do dia seguinte, no mínimo 91 judeus já haviam sido mortos. Em Berlim, quase todas as empresas judaicas foram destruídas. Onze sinagogas foram incendiadas, incontáveis livros de orações e rolos da Torá, destruídos, e milhares de judeus foram presos, enviados para campos de concentração ou induzidos ao suicídio. O dia 9 de novembro de 1939 tornou-se conhecido como a Noite dos Cristais (Kristallnacht).

Quando a imprensa estrangeira exigiu respostas e detalhes, Goebbels se adiantou em esclarecer a situação. O New York Times relatou que ele “aprovou abertamente a onda de terrorismo, destruição e incêndios que varreu a Alemanha”, e até prometeu que “haveria novas leis antijudaicas, para uma solução ampla do problema judaico, de maneira a equiparar o status dos judeus na Alemanha com o sentimento popular antissemita”. A reação dos alemães ao covarde assassinato em Paris mostrou que “a nação seguiu seus instintos saudáveis”, afirmou Goebbels. Ele confessou sua simpatia com os desordeiros e jurou silenciar toda crítica estrangeira com a ameaça de que os judeus alemães arcariam com as consequências das mentiras e dos exageros publicados no exterior. Quanto às vítimas dos ataques, Goebbels afirmou: “Se eu fosse judeu, ficaria calado. Só há uma coisa que os judeus podem fazer: ficar quietos e não dizer mais nada a respeito da Alemanha.”

A Noite dos Cristais provocou pouca indignação na Alemanha. As políticas de Hitler, iniciadas no final dos anos 1920, prepararam o terreno para a aquiescência daquela perseguição flagrante. Após anos de depreciação das contribuições judaicas para a sociedade e a cultura alemã, os nazistas tinham criado um clima em que a violência contra os judeus era amplamente tolerada.

No entanto, alguns norte-americanos consideraram chocante o deslavado antissemitismo alemão. Os jornais foram inundados por cartas de leitores que manifestavam preocupação e incredulidade. Por exemplo, de Saint Paul, em Minnesota, um leitor escreveu: “A extensão e a brutalidade dessa erupção de terrorismo são inacreditáveis”, e o “assassinato de um funcionário obscuro não pode justificar uma retaliação indiscriminada. A represália contra todo um povo por um crime de um jovem irascível é um retrocesso à barbárie”. Um leitor de São Francisco escreveu uma carta para o Chronicle da cidade, assombrado pelo fato de que “um louco pudesse contagiar todo um país de pessoas inteligentes, sensíveis e amáveis com sua loucura fanática”. Em Boston, um leitor do Herald Tribune observou que “o aspecto mais nobre da civilização moderna, isto é, o respeito pela vida humana, foi abandonado no momento na Alemanha”, e acrescentou que, embora “os assuntos internos da Alemanha sejam algo que diz respeito apenas aos próprios alemães (…) há certas práticas que são tão revoltantes para a humanidade, tão degradantes para a civilização, tão aviltantes para o espírito humano, que a ausência de protesto contra elas é quase o equivalente a aprová-las”.

Em 1º de setembro de 1939 a Alemanha declarou guerra à Polônia. A Grã-Bretanha e a França foram forçadas por meio de um tratado a declarar guerra contra a Alemanha. No entanto, enquanto as tropas alemãs avançavam em território polonês, a França e a Grã-Bretanha foram invadidas inicialmente não por tanques e bombas, mas por palavras. A guerra psicológica de Hitler abriu caminho para uma rápida sucessão de vitórias alemãs. A França e a Grã-Bretanha sabiam que seriam atacadas depois da Polônia, mas a França era mais vulnerável, com sua extensa fronteira com a Alemanha. Hitler preparou-se para a batalha infiltrando-se nas transmissões radiofônicas francesas. A Alemanha contratou locutores de origem francesa para induzir ouvintes inocentes a sintonizar música popular e programas de rádio divertidos. Muitos deles não se deram conta da propaganda que estava ali, inserida sutilmente. Esses radialistas expressavam preocupação quanto à vantagem do Exército e do poder militar alemão e previam que a França não seria capaz de resistir a um ataque. A dúvida que os programas de rádio de Hitler incutiram nas mentes francesas rapidamente se espalhou. Edmond Taylor, correspondente do Chicago Tribune que vivia na França na época, testemunhou a campanha de propaganda intricadamente coreografada de Hitler e como ela desintegrou a determinação francesa. Descrevendo-a como uma “estratégia de terror”, Taylor relatou que a Alemanha gastou enormes quantias em propaganda e até subornou jornais franceses para que publicassem artigos que confirmavam os rumores da superioridade alemã. De acordo com Taylor, a guerra de ideias alemã semeou um sentimento de apreensão “na alma da França, que se espalhou como um câncer monstruoso, devorando todas as outras faculdades emocionais por meio de um medo irracional, que era incontrolável”. A confiança dos franceses estava tão abalada que algo inofensivo como uma simulação da sirene de ataque aéreo gerou ondas de pânico; a mera insinuação de invasão reforçou a ideia de que a França seria certamente derrotada. Embora o governo francês tenha feito uma tentativa tardia de lançar uma contraofensiva ideológica, divulgando a necessidade de defender a liberdade, ela fora tão eficaz quanto dizer aos cidadãos para seprotegerem de um furacão abrindo seus guarda-chuvas. Quando a invasão finalmente ocorreu, a França se rendeu em seis semanas.

Destruindo de forma semelhante a determinação dos seus inimigos antes de invadi-los, Hitler derrotou a Polônia, a Finlândia, a Dinamarca, a Noruega, a Bélgica, a Holanda e Luxemburgo, além da França, em menos de um ano. Mais de 230 milhões de europeus, outrora livres, caíram sob o jugo nazista.

Depois que a França sucumbiu ao seu destino e rendeu-se à Alemanha, Hitler preparou-se para enviar uma mensagem poderosa ao mundo, mostrando o quão seriamente ele assumiu o papel de vingador da humilhação militar que a Alemanha sofrera na Primeira Guerra Mundial. A derrota francesa foi a oportunidade de exibir o poder do Exército alemão e intimidar outros países, que seriam invadidos no futuro.

Em 17 de junho de 1940, Hitler reuniu-se com o que restara do governo francês para assinar um armistício formal. Empregando todos os recursos dramáticos para marcar o episódio, Hitler insistiu em recriar a cena da derrota alemã na Primeira Guerra Mundial, a bordo do vagão particular do marechal Ferdinand Foch, na floresta de Compiègne, na França. Por longo tempo, o vagão estivera guardado num museu francês. Sob as ordens de Hitler, foi levado para o local exato em que estivera em 9 de novembro de 1918. Claramente, era a vez de a França ser humilhada. O Führer em pessoa comunicou os termos da capitulação aos oficiais franceses. Após a assinatura do armistício, Hitler decretou que o vagão de Foch e um monumento dedicado ao triunfo francês na Primeira Guerra Mundial fossem transferidos para Berlim, onde seriam expostos num museu, para marcar a vitória alemã sobre seu inimigo de longa data do outro lado do Reno.

Depois da ocupação de um país, os alemães tomavam grande cuidado para remodelar os conceitos de cultura, história, literatura, artes plásticas, imprensa e entretenimento daquela nação, numa iniciativa para solidificar e reforçar o poder de Hitler. Frequentemente, as bibliotecas eram o primeiro pilar cultural a ser derrubado. Hitler criou a Einsatzstab Reichsleiter Rosenberg (ERR) para confiscar os livros e outros objetos de arte nos territórios ocupados. Eram destinados a uma universidade nazista que seria construída após a guerra. Em contrapartida, os livros indesejáveis eram destruídos. Na Europa Oriental, a ERR destruiu com fogo uma quantidade desconcertante de 375 arquivos, 402 museus, 531 institutos e 957 bibliotecas. Segundo estimativas, os nazistas destruíram metade de todos os livros existentes na Tchecoslováquia e na Polônia e 55 milhões de exemplares na Rússia. Nos países ocupados, as bibliotecas que permaneceram abertas eram reorganizadas para atender ao programa nazista. As bibliotecas polonesas foram reestruturadas de acordo com a linha de pensamento nacional-socialista mediante um processo de registros de germanização, suplementando as coleções com literatura aprovada pelos nazistas e removendo todos os materiais indesejáveis. Após a derrota da Holanda, livros alemães recém publicados eram expostos a fim de impressionar o público com as façanhas do país. Quando a França caiu, uma das primeiras medidas alemãs foi publicar a Liste Bernhard, que relacionava 140 livros proibidos. Em setembro de 1940, uma lista mais abrangente foi divulgada, com cerca de 1.400 títulos. Em Paris, muitas bibliotecas foram simplesmente fechadas. Ironicamente, a Biblioteca de Livros Queimados, de H. G. Wells, foi cuidadosamente preservada pelos ocupantes nazistas. De acordo com o Dr. Alfred Kantorowicz, secretário-geral da biblioteca, ela foi mantida “fechada a sete chaves”, e, embora fosse “praticamente impossível o uso dos livros por estrangeiros”, os alemães os consultavam como referência. A atenção que Hitler dedicava às bibliotecas ficou tão conhecida que, em toda a Europa Ocidental, os bibliotecários e os curadores adotaram medidas preventivas, transferindo seus bens mais valiosos para cavernas e castelos, a fim de esconder e preservar coleções estimadas.

Quando os jornais norte-americanos relataram os ataques culturais de Hitler, a guerra começou a ser definida como tendo dois fronts ou dimensões. Um jornalista explicou: “Há duas séries de conflitos ocorrendo simultaneamente: os conflitos verticais, em que os países lutam um contra o outro, e os horizontais, que são ideológicos, políticos, sociais e econômicos.” Outras descrições referiam-se à guerra como algo que envolvia componentes físicos e mentais, e que se travava no campo de batalha e na biblioteca. Independentemente dos termos utilizados, emergiu o entendimento unânime de que a guerra não era travada somente nos campos de batalha: os ideais da nação também estavam sob a mira alemã. Hitler não almejava destruir somente exércitos, mas também a democracia e a liberdade de pensamento. Esse novo tipo de luta foi denominado “guerra total”.

Embora os norte-americanos se consolassem com o fato de estarem distantes fisicamente do Exército alemão, logo ficou evidente que as ideias de Hitler tinham longo alcance. Da mesma forma que invadiram a França com transmissões radiofônicas antes de enviar os soldados, a Alemanha recorreu ao rádio para conquistar as mentes norte-americanas muito antes que houvesse qualquer indício de envolvimento dos Estados Unidos na guerra. Em geral, nas décadas de 1930 e 1940, os aparelhos de rádio tinham bandas de ondas curtas para sintonia internacional. Todos os dias, durante dezoito horas, a Alemanha (com a ajuda do Japão) transmitia programas que chegavam até a América do Norte; a guerra de ideias contra os Estados Unidos havia começado. Se os Estados Unidos pudessem ser debilitados de maneira tão eficiente quanto a França, a Alemanha seria capaz de derrotá-los com pouquíssima luta.

Para tornar sua propaganda mais palatável aos norte-americanos, os alemães contrataram expatriados norte-americanos como locutores, pois seu sotaque poderia ocultar sua lealdade. Em troca de benefícios como cupons de racionamento, que só eram distribuídos para cidadãos alemães, e proteção numa Alemanha cada vez mais volátil, diversos norte-americanos ingressaram na Reichsradio. Frederick William Kaltenbach, nascido em Iowa, e Edward Leo Delaney, de Illinois, estavam entre os primeiros radialistas norte-americanos. Tempos depois, a Reichsradio recorreu à infame Mildred Gillars, mais conhecida como Axis Sally, para veicular alguns de seus maiores golpes propagandísticos. No entanto, a campanha teve pouco efeito. De imediato, a mídia norteamericana revelou o que estava por trás dos programas de rádio produzidos pelos alemães. O New York Times relatou que os programas alemães eram criados com inteligência, copiando o formato dos programas típicos norte-americanos: notícias, música e esquetes. No entanto, enquanto as estações de rádio domésticas incluíam anúncios de sabonetes e cereais, o New York Times advertia que a Alemanha estava determinada a vender um ponto de vista.

Além de desafiar a campanha de propaganda, alguns norte-americanos discutiram a possibilidade de contra-atacar. A rápida vitória sobre os franceses era uma mostra da eficácia da campanha radiofônica alemã. A American Library Association (ALA) foi uma das vozes mais estridentes a abordar essa questão. Os bibliotecários se sentiam no dever moral de impedir que Hitler fosse bem-sucedido em sua guerra de ideias contra os Estados Unidos. Eles não tinham a intenção de expurgar suas estantes nem de ver a queima de seus livros, e não iriam esperar até que a guerra fosse declarada para agir. Como uma publicação da ALA observou, em janeiro de 1941, o objetivo de Hitler era “a destruição de ideias, mesmo naqueles países não envolvidos em combate militar”.

Entre o final de 1940 e o começo de 1941, os bibliotecários discutiram como proteger as mentes norte-americanas dos ataques amorfos alemães contra as ideias. O bibliocausto europeu causara grande preocupação. Concluíram que a melhor arma e armadura era o próprio livro. Ao estimular os norte-americanos a ler, a propaganda radiofônica alemã seria diluída e a queima de livros significaria um contraste marcante. Enquanto Hitler procurava fortalecer o fascismo destruindo a palavra escrita, os bibliotecários encorajavam os norte-americanos a lerem mais. De acordo com um bibliotecário, se Mein Kampf, de Hitler, era capaz de “incitar milhões de pessoas a lutar em favor da intolerância, da opressão e do ódio, outros livros não poderiam ser encontrados para incitar outros milhões de pessoas a lutar contra aquilo?”

Na noite de 10 de maio de 1933, em Berlim, em um discurso, Goebbels afirmou que, das cinzas dos livros que ardiam diante dele, “renasceria vitoriosamente a fênix de um novo espírito”. Conforme Goebbels proferia essas palavras, ele via o nacionalismo, o fascismo e o nazismo alemão emanando dos restos dos livros.

Dez anos depois desse discurso, das cinzas quentes renasceu uma renovada dedicação à democracia e à liberdade. Dos restos daqueles livros enegrecidos e consumidos pelas chamas ascendeu um espírito dedicado à difusão de ideias, incluindo aquelas contidas nos livros que haviam sido destruídos. Em pouco tempo, graças aos bibliotecários norteamericanos, pilhas muito altas de livros se ergueriam nas bibliotecas, lojas de departamento, escolas e cinemas, não para serem queimados, mas sim doados aos soldados norte-americanos. Editoras concorrentes se uniriam, utilizando seus recursos e suas competências para editar para os soldados norte-americanos dezenas de milhões de livros sobre todos os assuntos e pontos de vista. Das cinzas, os livros renasceriam e floresceriam.

 

 

 

 

 

 

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