A meu ver, quem escreve para crianças pode abordar seu trabalho de três maneiras: duas são boas, e uma, em geral, é má.

A maneira má, fiquei conhecendo há pouco tempo, a partir de dois testemunhos involuntários. Um desses testemunhos me foi dado por uma senhora que me enviou o original de um conto que ela havia escrito, no qual uma fada punha à disposição de uma criança um mecanismo maravilhoso. Digo “mecanismo” porque não se tratava de capa, anel ou chapéu mágico, ou de alguma outra coisa tradicional. Era uma máquina, um aparelho cheio de registros, alavancas e botões que deveriam ser apertados. Se a criança apertasse o botão, ganharia um sorvete; se apertasse outro, ganharia um cãozinho de verdade, e assim por diante. Fui obrigado a dizer à autora, com toda a sinceridade, que eu não gostava nem um pouco daquele tipo de coisa. Ela respondeu: “Eu também não gosto, acho muito aborrecido. Mas é isso que a criança moderna quer.” O outro fato foi o seguinte: no primeiro livro que escrevi, fiz uma longa descrição de um chá completo – que me pareceu delicioso – oferecido por um fauno hospitaleiro à minha heroína, uma garotinha. Um homem, pai de vários filhos, me disse: “Ah, já sei como teve essa idéia. Se você quisesse agradar a leitores adultos, escreveria uma cena de sexo. Então, decerto, pensou: ‘Para crianças, não fá. Em vez de sexo, o que posso oferecer-lhes? Já sei! Os pirralhos adoram se encher de guloseimas.” Na realidade, porém, eu é que gosto muito de comer e eber. Escrevi o que eu gostaria de ter lido quando criança e que ainda gosto de ler agora, com mais de cinqüenta anos.

Tanto a senhora do primeiro exemplo quanto o pai de família do segundo concebem que escrever para crianças é um departamento especial, o de “dar ao público o que ele quer”. As crianças, evidentemente, constituem um público especial; basta descobrir o que elas querem e lhes oferecer exatamente isso, por menos que nos agrade.

Uma outra maneira, a princípio, pode parecer idêntica à primeira, mas penso que a semelhança é superficial. É a maneira de Lewis Carroll, Kenneth Grahame e Tolkien. O livro publicado nasce de uma história contada de viva voz e talvez espontaneamente a uma determinada criança. A segunda maneira é semelhante à primeira porque o autor, sem dúvida, procura dar à criança o que ela quer. Só que nesse caso ele está lidando com uma pessoa concreta, uma criança específica que, evidentemente, é diferente de todas as outras. Não concebe que as “crianças”, de modo nenhum, como uma espécie estranha cujos hábitos ele precisa “identificar”, como faria um antropólogo ou um caixeiro viajante. Também suspeito que não seria possível assim, frente a frente, entreter a criança com coisas calculadas para agradar a ela mas que o próprio autor visse com indiferença ou desprezo. Tenho certeza de que a criança não se deixaria enganar. Quem estivesse contando se tornaria um pouquinho diferente por estar falando com uma criança, e a criança se tornaria um pouquinho diferente por estar ouvindo as palavras de um adulto. Nesses casos, cria=se um acordo, uma composição de personalidades, da qual surge a história.

A terceira maneira, a única que sou capaz de usar, consiste em escrever uma história para crianças porque é a melhor forma artística de expressar algo que você quer dizer. Do mesmo modo, um compositor pode criar uma Marcha Fúnebre, não em vista de um funeral público, mas porque certas idéias musicais que lhe ocorreram se encaixam melhor nessa forma. Esse mértodo pode ser aplicado a outros tipos de literatura infantil, e não só às histórias. Ouvi dizer que Arthur Mee nunca conversou nem quis conversar com uma criança. Na opinião dele, era pura sorte os meninos gostarem de ler o que ele gostava de escrever. Pode ser que essa historieta tenha sido inventada, mas ela ilustra o que quero dizer.

Dentro da espécie “história para crianças”, a subespécie que por acaso me convinha era fantasia, ou (num sentido bem amplo do termo) o conto de fadas. Evidentemente, existem outras subespécies. A trilogia de E. Nesbit sobre a família Bastable é um excelente espécime de outro tipo. É uma “história para crianças” no sentido de que as crianças podem lê-la e, de fato, a lêem; mas também é a única forma pela qual E. Nesbit poderia nos transmitir com tanta intensidade a atmosfera da infância. É verdade que as crianças da família Bastable também figuram, apresentadas de modo bem-sucedido do ponto de vista adulto, num dos romances que ela escreveu para adultos, mas nele só aparecem por um momento. Acho que ela não teria condições de mantê-las. Quando escrevemos longamente sobre crianças vistas pelos olhos de adultos, o sentimentalismo tende a se introduzir, ao passo que a realidade da infância, tal como todos nós a vivemos, tende a se excluir. Ora, todos nós nos lembramos de que nossa infância, tal como a vivemos, era infinitamente diferente de como os adultos a viam. Foi por isso que, quando perguntaram a Sir Michael Sadler qual sua opinião sobre uma nova escola experimental, ele respondeu: “Não vou dar nenhuma opinião sobre nenhum desses experimentos enquanto as crianças não crescerem para nos dizer o que realmente aconteceu.” Assim, a trilogia dos Bastable, por mais improváveis que sejam muitos de seus episódios, proporciona até aos adultos, em certo sentido, uma leitura mais realista sobre infância do que se poderia encontrar na maioria dos livros escritos para adultos. Por outro lado, no entanto, também proporciona às crianças que a lêem algo muito mais maduro do que imaginam. O livro inteiro é um estudo do personagem de Oswald, um auto-retrato inconscientemente satírico, que toda criança inteligente é plenamente capaz de apreciar; mas nenhuma criança iria sentar-se para ler um estudo sobre um personagem se fosse escrito de outra forma. Há outro aspecto em que as histórias para crianças servem de veículo a esse interesse psicológico, mas tratarei disso mais adiante.

Nesse breve exame da trilogia dos Bastable, parece-me que tropeçamos num princípio. Nos casos em que a história para crianças é simplesmente a forma adequada para o que o autor quer dizer, é evidente que os leitores que quiserem ouvir o que ele tem a dizer vão ler ou reler a história, seja qual for a idade deles. Só aos trinta anos conheci O Vento Nos Salgueiros e os livros da família Bastable, e acho que nem por isso os aprecei menos. Inclino-me quase a afirmar como regrea que uma história para crianças de que só as crianças gostam é uma história ruim. As boas permanecem. Uma valsa da qual você só gosta enquanto está dançando não é uma boa valsa.

Essa regra me parece ainda mais verdadeira no que se refere ao tipo particular de história para crianças de que mais gosto, a fantasia ou conto de fadas. Hoje em dia, a crítica moderna usa o adjetivo “adulto” como marca de aprovação. Ela é hostil ao que denomina “nostalgia” e tem absoluto desprezo pelo que chama de “Peter Panteísmo”. Por isso, em nossa época, se um homem de cinqüenta e três anos admite ainda adorar anões, gigantes, bruxas e animais falantes, é menos provável que ela seja louvado por sua perpétua juventude do que seja ridicularizado e lamentado por seu retardamento mental. Se dedico algum tempo a defender-me dessas acusações, não é tanto porque me importe muito em ser ou não ridiculzarizado e lamentado, mas porque a defesa tem uma relação íntima com toda a minha concepção do conto de fadas e até mesmo da literatura em geral. Essa defesa consiste em três proposições.

1. Respondo com um tu quoque. Os críticos para quem a palavra adulto é um termo de aplauso, e não um simples adjetivo descritivo, não são nem podem ser adultos. Preocupar-se em ser adulto ou não, admirar o adulto por ser adulto, corar de vergonha diante da insinuação de que se é infantil: esses são sinais característicos da infância e da adolescência. E, na infância e na adolescência, quando moderados, são sintomas saudáveis. É natural que as coisas novas queiram crescer. Porém, quando se mantém na meia-idade ou menos na juventude, essa preocupação em “ser adulto” é um sinal inequívoco de retardamento mental. Quando tinha dez anos, eu lia contos de fadas escondido e ficava envergonhado quando me pilhavam. Hoje em dia, com cinqüenta anos, leio-os abertamente. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino, inclusive o medo de ser indantil e o desejo de ser muito adulto.

2. A visão moderna, a meu ver, envolve uma falsa concepção do crescimento. Somos acusados de retardamento porque não perdemos um gosto que tínhamos na infância. Mas, na verdade, o retardamento consiste não em recusar-se a perder as coisas antigas, mas sim em não aceitar coisas novas. Hoje gosto de vinho branco alemão, coisa de que tenho certeza de que não gostaria quando criança; mas não deixei de gostar de limonada. Chamo esse processo de crescimento ou desenvolvimento, porque ele me enriqueceu: se antes eu tinha um único prazer, agora tenho dois. Porém, se eu tivesse de perder o gosto por limonada para adquirie o gosto pelo vinho, isso não seria crescimento, mas simples mudança. Hoje em dia, já não gosto somente de constos de fadas, mas também de Tolstói, Jane Austen e Trollope, e chamo isso de crescimento; se tivesse precisado deixar de lado os contos de fadas para apreciar os romancistas, não diria que cresci, mas que mudei. Uma árvore cresce porque ganha novos anéis; já um trem não cresce quando deixa para trás uma estação e ruma para a seguinte, esbaforido. Na realidade, meu argumento de defesa é ainda mais forte e mais complexo. Hoje em dia, para mim, meu crescimento aparece tanto na leitura dos romancistas quanto na dos contos de fadas, pois a verdade é que agora aprecio melhor os contos de fadas do que apreciava na infância: como agora sou capaz de investir mais, também acabo extraindo mais. Mas não é esse o ponto que desejo enfatizar. Mesmo que o gosto pela literatura adulta viesse meramente acrescentar-se ao gosto inalteerado pela literatura infantil, o acréscimo, ainda assim, mereceria o nome de “crescimento”, o que não aconteceria se o processo consistisse em simplesmente deixar um fardo de lado e pôr outro sobre os ombros. É verdade que o processo de crescimento, por acaso e por infelicidade, acarreta outras perdas. Porém, não é essa a essência do crescimento, e certamente não é o que faz do crescimento algo louvável ou desejável. Se assim fosse, se trocar de fardos ou deixar estações para trás fossem a essência e a virtude do crescimento, por que parar na idade adulta? Por que não dar também um sentido positivo à palavra senil? Por que não congratular as pessoas por perderem os dentes e o cabelo? Certos críticos parecem  confundir o crescimento com o preço do crescimento, e também gostariam de tornar esse preço muito mais alto do que ele naturalmente deve ser.

3. A associação dos contos de fadas e histórias fantásticas com a infância é um fenômeno local e acidental. Espero que todos já tenha lido o ensaio de Tolkien sobre os contos de fadas, que talvez seja a contribuição mais importante que alguém já tenha dado a esse tema. Quem leu há de saber que, em quase todas as épocas e lugares, os contos de fadas não eram feitos especialmente para as crianças nem desfrutados exclusivamente por elas. Só se deslocou para a escola maternal quando caiu de moda nos círculos literários, tal como, nas casas vitorianas, a mobília que caía de moda ia para os quartos das crianças. A verdade, porém, é que muitas crianças não gostam desse tipo de literatura, assim como muitas crianças não gostam de sof´ras de crina, de que muitos adultos gostam, como gostam de cadeiras de balanço. E todos aqueles que a apreciam, sejam jovens ou velhos, provavelmente a apreciam pela mesma razão. E, mais ainda, ninguém é capaz de dizer exatamente que razão seria essa. As duas teorias que mais freqüentemente me ocorrem são as de Tolkien e Jung.

Segundo Tolkien¹, o atrativo do conto de fadas consiste em que nele o homem cumpre de maneira mais plena sua função de “subcriador”; não faz um “comentário sobre a vida”, como adoram dizer hoje em dia, mas constrói, tanto quanto possível, um mundo subordinado que lhe é próprio. Uma vez que, segundo Tolkien, essa é uma das funções características do ser humano, é natural que seu bom desempenho gere satisfação. Para Jung, o conto de fadas libera arquétipos que residem no inconsciente coletivo; e, quando lemos um bom conto de fadas, estamos obedecendo ao antigo preceito “Conhece a ti mesmo”. Ouso acrescentar aqui minha própria teoria, não desse tipo literário como um todo, mas de uma característica sua. Refiro-me à presença de seres não-humanos que, não obstante, comportam-se, em diversos graus, como os seres humanos: gigantes, anões e animais falantes. A meu ver, eles são, no mínimo (pois é possível que tenham muitas outras fontes de poder e beleza), um hieróglifo admirável que veicula uma psicologia, uma tipologia de caráter, de modo muito mais sucinto que o romance, e para leitores que o romance ainda não poderia atingir. Consideremos o sr. Texugo de O vento nos salgueiros – amálgama extraordinário de superioridade hierárquica, maneiras bruscas, mau humor, timidez e bondade. A criança que algum dia encontra o sr. Texugo guarda para sempre, em seu íntimo, um conhecimento da humanidade e da história social inglesa que não poderia adquirir de nenhum outro modo.

É claro que, assim como nem toda a literatura infantil é fantástica, nem todos os livros fantásticos são infantis. Mesmo numa época tão ferrenhamente anti-romântica como a nossa, ainda é possível escrever histórias fantásticas para adultos (embora em geral seja preciso fazer nome num gênero literário mais elegante para arranjar quem as publique). Porém, pode haver um escritor que, em determinado momento, encontre não somente na fantasia, mas na fantasia para as crianças a forma exata para dizer o que pretende dizer. A distinção é sutil. Suas fantasias para crianças e fantasias para adultos terão muito mais coisas em comum uma com a outra do que com o romance convencional ou com o que às vezes se denomina “romance da vida infantil”. Aliás, é provável que os mesmos leitores leiam seus livros fantásticos “infantis” e suas histórias fantásticas para adultos. Não preciso lembrar o público a quem me dirijo de que a classificação rígida dos livro segundo faixas etárias, tão cara a nossos editores, tem uma relação muito vaga com os hábitos dos leitores reais. Aqueles que são censurados quando velhos por lerem livros de criança também eram censurados quando crianças por lerem livros escritos para os mais velhos. Nenhhum leitor que se preze avança obedientemente de acordo com um cronograma. A distinção, portanto, é sutil; e não sei exatamente o que me fez sentir, num determinado ano de minha vida, que o que eu devia escrever – ou deixar jorrar – não era somente um conto de fadas, mas exatamente um conto de fadas para crianças. Em parte, acho que essa forma me permite, ou obriga, a deixar de fora certas coisas que eu queria mesmo deixar de fora: obriga-me a concentrar toda a força do livro nas palavras e atos dos personagens. Ela coíbe o que um crítico generoso, mas perspicaz, chamou de “o demônio positivo” que vive em mim, e também impõe certas restrições muito frutíferas as tamanho da obra.

Se deixei que o tipo fantástico de história infantil dominasse esta discussão, foi porque é o tipo que conheço melhor e de que mais gosto, e não por ter a intenção de condenar algum outro. Porém, os adeptos dos outros tipos gostam de condená-lo. Mais ou menos uma vez a cada cem anos, algum sabichão se levanta e tenta acabar com o conto de fadas. Talvez, então, convenha eu dizer algumas palavras em defesa desse tipo de leitura para crianças.

O conto de fadas é acusado de dar às crianças uma falsa impressão do mundo em que vivem. Na minha opinião, porém, nenhum outro tipo de literatura que as crianças poderiam ler lhes daria uma impressão tão verdadeira. As histórias infantis que pretendem ser “realistas” tendem muito mais a enganar as crianças. Quanto a mim, nunca achei que o mundo real pudesse ser igual aos contos de fadas. Acho que eu esperava que escola fosse igual às histórias da escola. As fantasias não me enganavam, as histórias de escola, sim… Todas as histórias em que as crianças passa por aventuras e sucessos que são possíveis, no sentido de que não rompem as leias da natureza, mas quase infinitamente improváveis, tendem muito mais que os contos de fadas a criar falsas expectativas.

Quase o mesmo argumento responde à popular acusação de escapismo, embora a questão, nesse caso, não seja tão simples. será que os contos de fadas ensinam as crianças a se recolher num mundo em que todos os desejos se realizam – numa “fantasia” no sentido técnico-psicológico do termo – em vez de enfrentar os problemas do mundo real? Bem, é aqui que o problema se torna sutil. Mais uma vez, vamos comparar o conto de fadas com a história escolar ou qualquer outra história que seja rotulada como “Livro para Meninos” ou “Livro para Meninas” em vez de livro infantil. Não há dúvidas de que ambos despertam desejos e os satisfazem imaginariamente. Temos vontade de passar através do espelho, de chegar ao pa´s das fadas. Também temos vontade de ser aquele aluno ou aluna imensamente popular e bem-sucedido, de ser o menino ou a menina de sorte que descobre a trama do espião ou monta o cavalo que nenhum caubói consegue domar. Os dois anseios, porém, são muito diferentes. O segundo, especialmente quando voltado para algo tão próximo como a vida escolar, é voraz e extremamente sério. Sua realização no nível imaginário é de fato compensadora: nós a buscamos, fugindo das decepções e humilhações do mundo real, e somos mandados de volta a ele com uma insatisfação nem um pouco divina. Trata-se sempre de lisonjear o ego. O prazer consiste em imaginar-se objeto de admiração. O outro anseio, o anseio pelo país das fadas, é muito diferente. Em certo sentido, a criança não anseia pelo país das fadas da mesma maneia que o garoto anseia por ser o herói da sexta série. Será que alguém supõe que ele, de fato e prosaicamente, anseia pelos perigos e desconfortos de um conto de fadas? – que seu desejo é de fato que houvesse dragões na Inglaterra contemporânea? De jeito nenhum. Seria muito mais verdadeiro dizer que o país das fadas desperta no menino um anseio ppor algo que ele não sabe o que é. Comove-o e pertuba-o (enriquecendo toda a sua vida) com a vaga sensação de algo que está além de seu alcance, e, longe de tornar insípido ou vazio o mundo exterior, acrescenta-lhe uma nova dimensão de profundidade. O memnino não despreza as florestas de verdade por ter lido sobre florestas encantadas: a leitura torna todas as florestas de verdade um pouco encantadas. Trata-se de um tipo especial de anseio. O menino que lê a história “escolar” do tipo que tenho em mente deseja o sucesso e fica infeliz (quando termina o livro) porque esse sucesso lhe escapa; o menino que lê o conto de fadas simplesmente deseja e sente-se feliz no próprio ato de desejar. Sua mente não esteve concentrada nele mesmo, como acontece freqüentemente nas histórias mais realistas.

Não quero dizer que histórias escolares para meninos e meninas não deveriam ser escritas. Só afirmo que elas tendem, muito mais do que as histórias fantásticas, a tornar-se “fantasias” no sentido clínico do termo. E a mesma distinção vale para a literatura adulta. A fantasia perigosa é sempre superficialmente realista. A verdadeira vítima do devaneio em que todos os desejos se realizam não se inspira na Odisséia, em A tempestade ou em A serpente Uroboros. Prefere histórias que falam de milionários, beldades irresistíveis, hotéins de luxo, praias tropicais e cenas picantes – coisas que poderiam realmente acontecer, que deveriam acontecer, que teriam acontecido se o leitor tivesse tido a justa oportunidade. Isso porque, como digo, existem dois tipos de anseio. Um deles é uma askesis, um exercício espiritual, o outro é uma doença.

Um ataque muito mais severo ao conto de fadas como literatura infantil é desferido pelos que não querem que as crianças sintam medo. Eu mesmo, na infância, sentia tanto medo à noite que não corro o risco de subestimar essa objeção. Não gostaria de acender a fogueira desse inferno particular para nenhuma criança. Por outro lado, nenhum dos meus medos nasceu de contos de fadas. Minha especialidade eram os insetos gigantes, e os fantasmas ocupavam um péssimo lugar. Suponho que os fantasmas tenham nascido, direta ou indiretamente, de algo que li, mas certamente não de histórias de fadas. Já os insetos não se originaram de nenhuma leitura. Não havia nada que meus pais pudessem fazer ou deixar de fazer para me salvar das garras, mandíbulas e olhos daquelas abomnações multípedes. E o problema, como tantos já observaram, é exatamente esse. Não sabemos quais são os obetos que podem despertar esse tipo de medo na criança. Digo “esse tipo de medo” porque precisamos, a esta altura, fazer uma distinção. Os que afirmam que as crianças não devem sentir medo podem estar querendo dizer duas coisas. Podem querer dizer (1) que não devemos fazer nada que possa despertar na criança medos fantasmagóricos, debilitantes e patológicos contra os quais a coragem comum nada pode: as chamadas fobias. Se possível, a mente da criança deve manter-se isenta de coisas em que não suporta pensar. Ou podem querer dizer (2) que devemos tentar manter a criança alheia ao fato de que nasceu num mundo onde há mortes, violência, ferimentos físicos, aventura, heroísmo, covardia, onde há o bem e o mal. Se querem dizer a primeira coisa, concordo com eles; se querem dizer a segunda, não concordo. Essa última é a atitude que dá às crianças uma falsa impressão e alimenta-as de escapismo, no mau sentido da palavra. Há algo de absurdo na idéia de educar desse modo as crianças de uma geração da era da OGPU² e da bomba atômica. Como é muito provável que venham a encontrar inimigos cruéis, convém que pelo menos ouçam falar de audazes cavaleiros e da coragem heróica. Caso contrário, o destino delas se tornará não mais luminoso, porém mais sombrio. Além disso, a maioria das pessoas constata que a violência e o derramamento de sangue , numa história, não produzem nenhum temor assombro nas mentes das crianças. Quanto a isso, tomo sem remorso o partido da raça humana contra os reformadores modernos. Que venham os reis malvados e as decapitações, as batalhas e as masmorras, os gigantes e os dragões, e que os vilões morram todos, cabalmente, no final do livro. Nada me convencerá de que isso provoca numa criança normal um tipo ou um grau de medo que esteja além do que ela precisa sentir. Pois é claro que ela quer sentir um pouquinho de medo.

Os outros medos – as fobias – já são uma questão diferente. Não creio que possam ser controlados por meios literários. Para que, ao nascermos, já os trazemos prontos conosco. Sem dúvida, a imagem particular em que se fixa o terror da criança pode às vezes remontar a um determinado livro. Porém, será o livro a fonte ou somente a ocasião do medo? Se a criança tivesse sido poupada daquela imagem, não haveria outra, igualmente impressível, que teria o mesmo efeito? Chesterton nos conta de um garotinho que tinha mais medo do Albert Memorial³ que de qualquer outra coisa no mundo. Conheço um homem cujo grande terror, na infância, era a edição da Encyclopedia Britannica em papel da China – por uma razão que desafio você a identificar. E parece-me possível que, se você só deixar que seu filho leia histórias inocentes sobre a vida infantil, em que nada assustador jamais acontece, além de não conseguir eliminar os terrores, acabará por eliminar da vida dele tudo o que possa torná-los respeitáveis ou suportáveis. Ora, nos contos de fadas, ao lado das figuras terríveis, encontramos os seres radiantes, os eternos protetores e consoladores; e as figuras terríveis não são meramente terríveis, mas também sublimes. Seria ótimo se nenhum menino, deitado em sua cama, ao ouvir ou imaginar que ouviu um ruído, jamais sentisse medo. Mas, se o medo é inevitável, é melhor que a criança pense em gigantes e dragões do que em meros ladrões. E acho que São Jorge, ou qualquer outro paladino armado, é um consolo bem maior que a idéia de polícia.

E vou mais longe. Se me fosse possível escapa de meus medos noturnos à custa de nunca ter conhecido a “terra encantada”, será que eu teria saído ganhando com a troca? Não estou sendo leviano. Os medos eram terríveis. Mas parece-me que o preço a pagar teria sido alto demais.

Porém, afastei-me demais do tema, e isso foi inevitável, pois, dos três métodos, só conheço por experiência o terceiro. Espero que meu título não tenha levado ninguém a pensar que eu seria presunçoso a ponto de querer dar conselhos sobre como escrever para crianças. Tive duas excelentes razões para não fazer isso. Em primeiro lgar, muita gente escreveu histórias bem melhores que as minhas, e prefiro aprender sobre essa arte a pretender ensiná-la. Em segundo lugar, em certo sentido, jamais “criei” uma história. Comigo, o processo assemelha-se muito mais à observação de pássaros do que ao falar ou construir. Eu vejo imagens. Algumas dessas imagens têm um sabor comum, quase um mesmo aroma, que as reúne num único grupo. Fique quieto, simplesmente olhando, e elas começarão a se juntar. Se você tiver muita sorte (eu nunca tive tanta), um conjunto completo se eunirá numa forma tão coerente que você terá uma história perfeita, sem precisar fazer nada. Mas, com mais freqüência (para mim, sempre), restam algumas lacunas. É então que, por fim, será preciso inventar deliberadamente, criar razões para que determinados personagens estejam em determinados lugares fazendo determinadas coisas. Não sei se é esse o método usal de escrever histórias, e menos ainda se é o melhor. No entanto, é o único que conheço: para mim, as imagens vêm em primeiro lugar.

Abtes de terminar, gostaria de voltar ao que disse no começo. Rejeitei toda e qualquer abordagem que parta da pergunta: “Do que as crianças modernas gostam?” Poderiam me perguntar: “Você também rejeita a abordagem que parte da pergunta: ‘Do que as crianças modernas precisam? ‘ – em outras palavras, a abordagem moral ou didática?” Acho que a resposta é “Sim”. Nõ porque eu não goste de que as histórias tenham uma moral, e menos ainda por pensar que as crianças não gostam da moral da história. É antes porque tenho certeza de que a pergunta “Do que as crianças modernas precisam” não nos levará a uma boa moral. Ao fazer essa pergunta, assumimos uma atitude de excessiva superioridade. Seria melhor perguntar: “Qual é a moral de que eu preciso?”, pois penso que, com certeza, o que não nos preocupa profundamente não interessará profundamente a nossos leitores, O melhor, porém, é não fazer pergunta nenhuma. Deixe que as imagens lhe contem qual é a moral delas, pois sua moral intrínseca nasce naturalmente das raízes espirituais que você conseguiu lançar no decurso de sua vida. Por outro lado, se elas não lhe mostraem moral nenhuma, não queira inventá-la. A moral inventada provavelmente será um lugar-comum, ou mesmo uma falsidade, colhida a esmo da superfície de sua consciência. Não cabe oferecer isso às crianças, uma vez que uma autoridade inquestionável nos garantiu que, na esfera moral, elas são pelo menos tão sábias quanto nós. Quem consegue escrever uma história para crianças sem moral nenhuma deve fazê-lo – desde que, é claro, esteja mesmo disposto a escrever para crianças. A única moral que vale alguma coisa é a que borta inevitavelmente de toda a estrutura de caráter do autor.

Aliás, tudo na história deve brotar da estrutura de caráter do autor. ara escrever para crianças, temos de partir dos elementos de nossa imaginação que temos em comum com elas. Somos diferentes de nossos pequenos leitores não por nos interesarmos menos, ou menos seriamente, pelas coisas de que estamos tratando, mas or termos outros interesses de que as crianças não compartilham. A matéria de nossa história deve fazer parte do mobiliário habitual de nossa mente. Foi essa, a meu ver, uma característica de todos os grandes escritores de literatura infantil, mas nem todos o compreendem. Há não muito tempo, para elogiar um conto de fadas bastante sério, um crítico afirmou que o autor “não disse nada em tom de pilhéria”. Mas por que deveria dizê-lo se não estava contando na da engraçado? A meu ver, nada é tão fatal para essa arte quanto a idéia de que o que temos em comum com as crianças é, no sentido privativo, sempre algo “infantil”, e que o infantil é sempre cômico. Devemos encarar as crianças como nossos iguais naquela região da nossa natureza em que efetivamente somos iguais. Nossa superioridade consiste, por um lado, em termos acesso a outras regiões, e, por outro (e mais pertinente), em termos mais habilidades que elas para contar histórias. A criança, como leitora, não deve nem ser tratada com condescendência nem idealizada: falamos com ela de homem para homem. Todavia, a pior de todas as atitudes é a atitude profissional, que vê as crianças indistintamente como uma esécie de matéria-prima que temos de manipular. É claro que temos de nos esforçar para não lhes fazer mal; e podemos, se a Onipotência assim quiser, ter a ousada esperança de fazer-lhes algum bem – mas não mais que o bem de tratá-las com respeito. Não podemos imaginar que somos a Providência ou o Destino. Não digo que um funcionário do Ministério da Educação não possa escrever uma boa história para crianças, pois tudo é possível. Mas não apostaria nisso.

Certa vez, num refeitório de hotel, eu disse em voz um pouco alta demais: “Odeio ameixas secas”. De outra mesa, inesperadamente, ouvi a voz de um menino de seis anos: “Eu também”. A simpatia entre nós foi instantânea. Nem eu nem ele achamos aquilo engraçado. Ambos sabíamos que as ameixas secas são ruins demais para serem engraçadas. É esse o encontro adequado entre o homem e a criança como personalidades independentes. Quanto às relações muito mais elevadas e mais difíceis entre uma criança e seus ais ou entre crianças e professores, nada digo. Um escritor, um mero escritor, está fora disso. Não é nem mesmo um tio. É um homem livre, um igual, um par, como o carteiro, o açougueiro e o cachorro do vizinho.

 

Referências

¹ “On Fair-Stories”, Essays Presented to Charles Williams (1947);

² Polícia secreta soviética;

³ Um monumento londrino.

 

 

 

 

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