(Fonte: A Invasão Vertical dos Bárbaros, 1967)

“Para o bárbaro, o criminoso é visualizado duplicemente: segundo o seu crime atinja a tribo ou a alguém da tribo, ou se atinge quem não é da tribo ou se além disso é inimigo. No primeiro caso, há crime pleno; no segundo, atenua-se e, no terceiro, anula-se. O crime não é concebido enquanto em si mesmo, ou em relação à coletividade, mas apenas em relação ao objeto da lesão criminosa, a vítima.

O mesmo ato lesivo pode ser considerado infame ou nobre, tudo dependendo de quem ou do que sofre.

Em geral, é o criminoso punido pela lei do dente por dente, do olho por olho, no primeiro caso, e só.

Verifica-se, no ocidente, depois do que sucedeu em épocas passadas, que voltamos, agora, principalmente, os olhos para o criminoso. A lesão em si torna-se Secundário, e o objeto da lesão também. Uma benevolência crescente vai cercando o
criminoso, e há tendência para considerá-lo apenas como um doente mental. Como a idéia de liberdade foi falsificada, como os que falam nela pouco dela entendem e menos ainda
entendem os que a combatem, como a confusão reinante neste setor, como se tende a transformar o homem apenas num feixe de reflexos, numa coisa que reage a outras coisas, e não num ser que dispõe de inteligência e de vontade, estas últimas, reduzidas até a meros reflexos e nada mais, a benevolência quanto ao criminoso cresceu além dos limites justos, porque, realmente, havia, em nossos antepassados, uma visão exagerada em relação ao criminoso, a ponto de as penas serem desproporcionadas à lesão real do crime.

Ora, nem tanto à terra nem tanto ao mar. Se uma acentuada benevolência, dentro de limites justos, se impunha, não havia necessidade de se cair de um excesso a outro excesso. Hoje há uma tendência viciosa para tornar o criminoso mais numa vítima do que num responsável. E isso só tem servido para estimular o crime. O crime multiplicou-se e atingiu índices apavorantes. O número dos que se salvam diminui assustadoramente, apesar da repressão policial e de toda a propaganda dos amigos dos criminosos, dos que postulam
penas cada vez mais suaves.

Não se pense que defendemos excessos. Queremos sempre permanecer no meio justo e bom, conforme a grande máxima pitagórica. E bom aqui é o justo, o conveniente, visto com prudência e moderação, porque deve haver até moderação na benevolência. A magnanimidade e a clemência pertencem à moderação, sim, mas exigem a justiça, a prudência e a coragem, para que não se tornem viciosas. A magnanimidade e a clemência têm de se manifestarem contidas na justiça, de modo a nunca ofendê-la.

Impõe-se abandonar a demagogia com os criminosos. Eles precisam de nosso auxílio, sem dúvida, mas o que é mister, do lado da sociedade, é que não estimulemos a sua multiplicação. Que adiantaria lutar para salvarmos os que sofrem de uma determinada doença, se nos afanarmos ainda em propagá-la. Salvaremos ou melhoraremos os
indivíduos, mas prepararemos o terreno para que os criminosos não se multipliquem.

E há ainda barbarismo aqui. O barbarismo está na Benevolência exagerada. Nós procedemos para com os criminosos como os bárbaros, que julgam que o crime cometido contra outros, tribalmente estranhos, é lesão de menor importância. Os que sofrem as lesões são nossos irmãos, e os que ainda poderão sofrer também o são. Como impedir a proliferação do crime, que ameaça tragar esta sociedade, se esta se polariza, hoje, na mais estúpida das polarizações polícia x bandido, e não prossiga avante, desenvolva-se, avassale?”

 

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